Quando nasceu, não chovia nem fazia sol. Era um fim de tarde morno, com algumas nuvens acinzentadas, daquelas que só fazem o dia abafado e nostálgico.
Amigos e parentes a visitaram mesmo antes de ela ser retirada, via cesariana, do útero. Aguardaram ansiosamente na cafeteria do hospital - eram, ali, todos, de sangue ou de coração, tios e tias - até que a notícia no nascimento chegou: Julia nasceu.
Embora profundamente amada, seu primeiro choro foi de melancolia. A mesma melancolia que seria alimentada por toda sua vida.
Não estou dizendo que era infeliz, mas, na escola primária ainda, durante o intervalo, enquanto seus colegas brincavam de esconde-esconde, ela permanecia na sala, sozinha, entre seus livros, diário e alguns desenhos em preto e branco.
Sua adolescência foi um passeio no parque. Por ser bonita, atraía muito os meninos, mas isso não a mobilizava, tampouco envaidecia. Beijou quando quis beijar, namorou assim que sentiu querer estar com Vitor logo depois que ele ia embora. Aceitou seu pedido sem titubear. Ainda assim, não compartilhou, apesar de sorrir sinceramente, a explosão de felicidade dele.
Aproveitava os minutos na companhia do namorado e as saídas ao cinema, cafés, festas de amigos e, seu favorito, assistir o amanhecer de dias nublados.
A primeira transa foi cercada de afeto, carinho, cumplicidade e pouco prazer. Na realidade, naquela noite, Julia dormiu sorrindo abraçada por Vitor. Não sonhou e acordou sendo beijada dos pés à cabeça, o que a fez sentir aquele friozinho na barriga, a respiração acelerar, sua calcinha umedecer...
Foram, aos poucos, se descobrindo e aproveitando as novidades. O primeiro gozo veio acompanhado de um quase inaudível gemido. Julia gostou e aprendeu como prolongar o prazer e conduzir o sexo sem que Vitor percebesse.
Com pouco mais de 24 meses na mesma relação, Vitor, então com 18 anos, sentiu necessidade de andar livre, vivenciar outras experiências e conhecer novas pessoas... principalmente, conhecer novas pessoas. Aparentemente, para Julia, sem motivo qualquer, pois tudo estava como sempre fora. Vitor, na primeira segunda-feira daquele mês de junho, terminou tudo com ela.
Sentiu certo pesar pelos momentos bons do dia-a-dia que desapareceriam, mas não se entristeceu. Na mesma noite, dormiu mais cedo, pois, diante das novas circunstâncias, não iria ao cinema.
Prestou vestibular pra psicologia e passou de primeira numa colocação intermediária. Jamais abandonou ou repetiu nenhuma matéria, apesar de ter ido para prova final de algumas.
Durante a vida acadêmica, se engajou em pesquisa comportamental e, mesmo antes de formar-se, decidiu que trabalharia com recursos humanos. No campus, fez algumas amizades e, debaixo da mangueira, numa primavera, fumou maconha pela primeira vez e só sentiu fome, muita fome. Comeu quatro pastéis acompanhados por meio litro de Coca-Cola. Fumou mais algumas vezes, mas ao perceber que não gostava de ficar chapada, parou, apesar de não deixar o hábito de fumar um Malboro Light com café, após a terceira aula da manhã.
Foi pedindo o isqueiro emprestado pra alimentar o hábito que conheceu Tom, estudante de Ciências Sociais, que, por acaso, naquele dia, tomava um café, pois acordara atrasado e não se alimentara antes de correr para a universidade. Conversaram trivialidades pela hora seguinte. Julia se divertiu com o senso de humor do rapaz e, sem dizer nada, desejou que ele aparecesse novamente. Três semanas depois, já esquecido, Tom surgiu com o isqueiro aceso em punho, arrancando um sorriso daquele rosto de pele escura e olhos levemente puxados que se fechavam toda vez que sorria.
Julia verdadeiramente gostava da companhia de Tom, da maneira que ele a beijava, cuidava, a tocava e se dedicava ao prazer dela no sexo. Sem programarem muito, com o passar dos dias, perceberam que estar junto era melhor que separado e alugaram um apartamento de dois quartos num prédio antigo, mas bem cuidado.
Apesar do volume de trabalho, sempre tomavam café da manhã e jantavam juntos, assim tinham a oportunidade de conversar sobre os acontecimentos do dia, além de alimentar a cumplicidade que permeava os nove anos de relacionamento.
Muito eventualmente, entre uma atividade e outra, Júlia pensava na própria vida e percebia que era, dentro do que ouvia dizer por aí, feliz.
Foi uma grávida exemplar que, cuidadosamente e cheia de afeto, preparou tudinho para a chegada de um guri.
No dia marcado, chegaram cedo ao hospital. Julia, ao contrário do futuro papai, estava tranquila e serena. Seguiu todos os procedimentos sem reclamar, foi simpática com as enfermeiras e receptiva com os parentes e amigos mais próximos que compareceram para testemunhar aquele momento tão sublime na vida de um casal.
Quando Julia partiu para sala a de cirurgia, Tom a beijou amorosamente na testa, este que fora o último beijo.
Este texto foi revisado por Mariana Paiva


19 de agosto de 2011 12:37
Delícia de conto!
Delícia de leitura!
Me deixou com gostinho de "quero mais!"
Parabéns!
19 de agosto de 2011 12:39
Lubis,
Parabéns!
Que bom que você arriscou. Ficou show!
Uma delícia de conto. Delícia de leitura!Me deixou com gostinho de "quero mais"! Beijos
19 de agosto de 2011 13:22
Leve, como as coisas boas devem ser.
bjo, babes.
20 de agosto de 2011 03:59
Encantada!!! Meu nome é Larissa, e o seu???
(=^.^=)
Bjs, bjs
20 de agosto de 2011 03:59
23 de agosto de 2011 06:15
Lubisco,
neste dia de chuva e mergulhada em melancolia, ler o seu texto me revelou uma tristeza bela ou uma beleza na tristeza.
abração.
24 de agosto de 2011 07:36
Lindo conto.
Bem escrito, bem sentido, quase que palpável...
A cada texto novo uma nova emoção... Parabéns
24 de agosto de 2011 07:54
Tem que comentar...?
Me deixou devagar...
Tranquila...
Paz.
13 de outubro de 2011 04:20
Acordei hoje com essa sensação nostálgica dos dias indecisos, aqueles que não fazem chover e nem fazem sol (num plágio descarado de suas palavras). E enquanto aguardo uma crônica nova que me arranque um riso ou me faça chorar decidi ler PASSAGEIRA novamente. Chega a ser irritante de tão lindo...