Quando digo que não bebo nada alcoólico desde os 18 anos, junto com um olhar de incredulidade e espanto, vem o:– Mas por quê?
Putaquepariu, porque não! Odeio explicar que, além de não apreciar o sabor da cerveja – a bebida mais comumente ingerida –, não gosto da sensação de estar com meu estado de consciência alterado em absolutamente nem um grauzinho sequer. Sem contar que passo mal.
Cândido Neto, excelente guitarrista e produtor musical, tem dois grandes objetivos na vida: resmungar e me embebedar. Invariavelmente, das poucas vezes que nos encontramos – poucas, levando em consideração que temos diversos amigos em comum –, Amarelo, como é conhecido, me oferece um drink.
– Você ainda continua com essa viadagem de não beber?
– Uhum.
– Tem cura, man.
Da última vez que nos batemos num bar ali no Rio Vermelho, bairro boêmio aqui em Salvador, ele, no melhor estilo Mestre dos Magos, surgiu do nada com duas doses de tequila: uma pra ele e outra pra mim, senhoras e senhores. Depois de alguns minutos negando a generosa oferta, percebi que Amarelo não cederia. Então, para acabar com aquele tormento, aceitei: uma pitada de sal, uma fatia de limão e uma dose num só gole, sem dó nem piedade. Afe, quase morri. Parecia que tinha engolido um gato vivo que ia descendo com as garras fincadas na minha garganta. Em-bri-a-ga-do.
Outra pressão social que sofro é por não querer ter filhos. Isso é um saco. Na realidade, é insuportável. Toda vez, invariavelmente, toda vez que afirmo meu total desinteresse pela paternidade, as pessoas, arraigadas pelo senso comum, argumentam que isso é passageiro e em breve mudarei de ideia, afinal, todos querem procriar.
Isso ainda se agrava quando interajo com crianças e percebem que tenho jeito com as criaturinhas.
– Fica aí dizendo que nunca vai ser pai e blá, blá, blá. Quando tiver, vai ser um paizão.
Como diria Jack o Estripador, vamos por partes:
1. Gostar de criança não significa querer ter filho;
2. Ter jeito com criança não significa ser bom pai;
3. Não gosto de crianças! Gosto de algumas crianças.
Há mais ou menos uma semana, tive o privilégio de conhecer, finalmente, Maria Luisa, a filha de Silvana Hirsch. No auge dos seus três anos, Malu me conquistou. Além de linda, com grandes olhos expressivos e uma boca que parece ter sido cuidadosamente desenhada por Da Vinci, é assustadoramente articulada para a idade e tem uma compreensão da vida que poucos adultos conseguem acompanhar. Pois bem, em meio minuto, Malu me conquistou. Percebe a diferença? Não gosto de Malu porque ela é criança. Gosto de Malu porque Malu é Malu.
No nosso encontro, resolvi fazer uma mágica. Peguei duas moedas, coloquei na palma da mão e perguntei:
– Malu, cê sabe o que é isso?
– Claro. Dinheiros!
Adulto insuportável, pensei: quem me dera tivesse mais dinheiros agora. Acho engraçado quando algumas pessoas falam que não saberiam o que fazer se ganhassem na loteria, pois é dinheiro demais. Oxe, eu super saberia! Tenho alma de rico, a despeito da minha conta bancária. Mas como é ligeiramente improvável ganhar na megasena acumulada sozinho, fico elucubrando sobre em quê investiria se tivesse uma graninha sobrando. Nada demais, apenas o suficiente para abrir um negócio próprio, ser meu próprio chefe e, principalmente, estabelecer meu próprio salário.
A minha primeira ideia sempre foi uma funerária. O público-alvo, além de garantido, jamais retorna pra reclamar do serviço. Contudo, sempre esbarro em duas questões: não sei como faria para propagandear meu produto nem, tampouco, consigo pensar num bom nome sem soar, no mínimo, estranho.
Aqui em Salvador, tem uma chamada A Decorativa. Puta que pariu! É tão ruim quanto aquela casa especializada em depilação chamada Pelo Zero. Como assim Pelo Zero, mermão? Não tinha um nome mais infame, não? Ah, pior que o nome era o slogan: pelo sim, pelo não, Pelo Zero. Afemaria! Putaquepariu! Mas se você acha que não tinha com piorar, sinto muito por decepcioná-lo. Na época do réveillon 2010-2011, quase engasguei ao me deparar com um outdoor: Pelo 3, pelo 2, pelo 1, Pelo Zero!
Salvador é um terreno fértil para aberrações deste tipo. Talvez a maior loja de móveis e eletrodomésticos daqui chama-se Insinuante. Para os locais, passa despercebido, pois já estamos acostumados, mas Insinuante é nome de loja de lingerie ou de motel! Pelamordedeus, né?
Há, na Avenida Sete, bem no centrão da cidade, uma loja de bijuterias cujo logotipo é aquele sinal de joia feito com o punho cerrado e somente o polegar pra cima. O nome da loja: Mãozinha Joias. Escataploft, caí da cadeira. Surreal, inacreditável, inadmissível. Nem meu amigo Pedrão seria capaz de um trocadilho tão... tão... tão torpe.
Para não incorrer nestes equívocos, minha segunda opção de negócio já tem tudo planejado: seria uma boate bissexual chamada Ambos. A pronúncia, vale ressaltar, com aquele “s” de criança que coloca a língua entre os dentes, sabe? Tipo o artigo definido da língua inglesa, the. O garoto propaganda, por questões óbvias, seria Victor Fasano. E o slogan: por um lado é bom, pelo outro... é melhor.
Texto revisado por Paula Berbert.


25 de junho de 2011 18:37
Crise de riso mudo e lágrimas com Mãozinha Jóias.
26 de junho de 2011 13:16
Lubisco, não o conheço pessoalmente, mas preciso dizer-te que aprecio muito sua forma de escrever.
Um abraço!
26 de junho de 2011 21:17
Lubisco,
Como diria você e Jack, vamos por parte:
1 Sempre me identificando com seus textos;
2 També não bebo e sempre me perguntam se eu sou evangélica rsrssr;
3 Crianças nos encantam não por serem crianças, mas por ser AQUELA criança;
4 E essa logo: Não+Pêlo ???
5 E ultima: Essa loja "mãozinha", o dono tem um problema físico em uma das mãos, daí o nome da loja, é o apelido dele. rsrs
Até breve!! Ana Gois
27 de junho de 2011 05:55
Rei, no Rio tem uma casa de depilação que se chama Pelo Menos. Hahahahahah. Lembreizão. E Malu é fã de dinheiros, inclusive o cofrinho dela tá cheião, ela não deixa passa uma moeda! Muito bom o texto e fico lisonjeada de ter minha filhota citada num texto seu! :). Beijo, Sil.
10 de julho de 2011 17:44
"No melhor estilo Rei dos Magos é" ? kkkkkkk, só mesmo você Lubisco !
Um grande abraço meu velho !
27 de julho de 2011 11:38
Adoro seus textos, Lubisco!
Sempre me trazem um sorriso, um riso ou uma reflexão!
Tudo de bom!
Beijos
8 de agosto de 2011 08:33
Texto delicioso de ler. É tão bom isso, né?
Vá em frente, gato. Vc rox.
beijo!
8 de fevereiro de 2012 12:12
ô meu deus, "Mãozinha Joias", eu não posso crer que isso realmente exista. Eu me recuso! Agora Insinuante sempre me intrigou. Toda vez que passo na frente de uma eu me pergunto quem foi o smartão que batizou uma loja de eletrodomestico com nome sex shop...