TRINTA

Ontem uma aluna disse que adorava meu perfume. Fiquei preocupado, pois ela estava distante, a uns três ou quatro passos de mim. Teria exagerado? Prontamente perguntei se estava forte demais, porque, vamos combinar uma coisa, cheiro é foda! Pro bem e pro mal.

Quando ainda cursava língua estrangeira na UFBA, no finalzinho dos anos 1990, Luiza, uma menina de uns 23 anos, nem baixa nem alta, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, nem simpática nem antipática, me desconcentrava com a fragrância de seu perfume. Fazer prova perto dela era um tormento. Lu se transformava na mais bela das mulheres. Era um exercício de autocontrole para não me atracar nela. O que havia de concreto, todavia, era uma avaliação de Filologia Românica para terminar em menos de duas horas. Humpf!

Por outro lado, no segundo grau, coincidentemente ou por uma escrota ironia do destino, outra Luiza, uma menina de uns 16 anos, nem baixa nem alta, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, nem simpática nem antipática, me desconcentrava com seu bafo de bueiro. Na realidade, era necessário manter uma distância regulamentar de não menos que 4 metros, caso fosse necessário conversar com ela tête-à-tête.

Nós, colegas, chegamos a teorizar a respeito daquele cheiro de carniça e até cogitamos conversar com ela – sei lá, dar um toque, sabe? Entretanto, ninguém se voluntariou para tão ingrata tarefa. Jamais descobri se foi pela situação delicada e embaraçosa ou pela perspectiva de se deparar com o hálito de urso acordando após hibernar.

Para bem de todos e felicidade geral da nação, Luiza descobriu que tinha um abscesso proveniente de uma infiltração numa ponte que fizera no segundo molar superior esquerdo. Nosso problema seria resolvido em uma semana, não mais que isso, já que a consulta com o super-herói, digo, dentista, já estava marcada.

Achei melhor manter esta informação confidencial, apesar de não ter havido nenhum pedido explícito para tal, mas senti-me compelido a contar as boas novas para um colega que, durante 20 dos 30 minutos de recreio, reclamava incessantemente por estar, justamente naquele dia, sentado ao lado dela:

– Man, assim... Tenha paciência. Ela já descobriu o problema e vai solucionar.
– Com certeza?
– Aham.
– E o que é, Lubis?
– Rapaz, parece que é um problema na ponte...
– Tô ligado, tô ligado... Devem ter cagado embaixo da ponte!

Meu amigo-irmão Léo tem uma teoria sensacional sobre esses sprays aromatizantes de banheiro. Isso mesmo, aqueles que salvam nossa reputação quando visitamos a casa da nossa paquerinha pela primeira vez e a natureza clama por uma descarga intestinal.

– O cara se desgraça no trono. Lança uma bomba de destruição em massa – chega o ar fica viscoso. Daí, se convence que com dois jatos de um “aroma especial de flores do campo” tudo estará resolvido. Resultado: o pai da menina entra no toalete logo depois e berra: “PQP, cagaram nas flores do campo!”.

E se a visita ao quartinho for resultado de uma feijoada, o vexame é elevado à enésima potência. Angelo, coitado, quando foi conhecer a família da então namorada, passou por um perrengue danado. Devorara o mais famoso prato brasileiro na noite anterior e o ápice do processo digestivo coincidiu justamente com o fim do almoço. Educadamente pediu licença, deixou a mesa e procedeu até o lavabo. Depois de interditar banheiro e intimamente desejar ter uma máscara antigás, foi dar a descarga e... quem disse que tinha água?

O alívio por ter esvaziado as tripas foi substituído pela vergonha antecipada. Com a camisa ensopada de suor, saiu do banheiro e, discretamente, chamou Márcia (nome fictício; em tempo: o de Angelo é Angelo mesmo) para explicar a gravidade do problema. A única solução era usar um balde, e assim foi feito. Até aí nada demais, né? A questão é que ele precisou encher o balde no tanque da área de serviço três vezes e atravessar a sala onde o sogro, a sogra, os cunhados, três primos de 2°grau, uma tia-avó semissurda, mas de visão e olfato apuradíssimos, duas tias e o avô paterno da namorada comiam torta de limão na sobremesa.

O feijão, todavia, não deve ser considerado, por causa deste indesejável efeito colateral, nosso inimigo número 1. Além dos incontáveis benefícios à nossa saúde, como fonte de proteínas, ferro, cálcio, vitaminas (principalmente do complexo B), carboidratos e fibras, os caroços de Phaseolus vulgaris têm papel fundamental na vida colegial de toda uma geração.

Lembro-me quando envolvíamos, na aula de ciência, um feijãozinho no algodão molhado e acompanhávamos, ansiosos, de um dia pro outro, ele brotar. Quando alcançava um tamanho X, transferíamos para um vasinho com terra vegetal e, finalmente, tínhamos nosso próprio pé de feijão.

A matemática também deve muito a estes grãos. Quantas pessoas não aprenderam a somar e diminuir com feijõezinhos?

A filha de D. Nádia, minha amiga Catarina, que recém-trintou, aprendeu assim: grão a grão, acrescentando num grupo, retirando de outro... e logo, logo já estava fazendo contas de cabeça. Danadinha que era, cálculos com dois dígitos e tudo.

Sr. Mário, que é exatamente 30 anos mais velho que ela – e quando digo exatamente, quero dizer exatamente mesmo: ambos são de 5 de maio –, notando a rápida evolução na filhota, a estimulava:

– Quando você tiver 10 anos, papai terá quantos?
– Quarenta.
– E quando você fizer 15?
– Quarenta e cinco.
– Uau! Muito bem! Quando você fizer 20, eu farei...?
– ... Cinquenta?
– Isso mesmo! E 30? Quando você fizer 30 anos, Cat, eu terei quantos anos?
– Oxe, meu pai. Aí você já morreu, né?!

Revisão e pitacos: Paula Berbert

10 Response to "TRINTA"

  1. Iago Vieira Says:

    não sou mulher do padre!!hahaha. Eu também tenho um amigo com uma latrina sem descarga na boca, pqp!e é todo dia...
    abraço

  2. Eduardo Siemens Says:

    Falou em perfume forte, eu já tinha certeza que era alguma indireta pra mim, mas ainda bem que não foi! Rs. Tô lembrando de Cris O. que disse que aconteceu uma situação parecida com ela dentro de um ônibus. Ela terminou a resenha dela com a seguinte frase: "Quando a natureza te chamar, meu filho, nunca diga não para você não acabar fazendo besteira no ônibus".

    Ai ai...

    ;)

  3. Larissa Souza Says:

    Sensacional...!
    Hahahahaha
    (=^.^=)

  4. mariana Says:

    Muito bom Lubis!!Como sempre!!
    Papo de coco sempre arranca bons risos!!
    Sempre relembro alguma coisa lendo as sua crônicas!!
    Lembro que ia toda perfumada pra escola e todos os dias mainha reclamava dizendo que estava muito forte!kkkkkkkkkkkk!! Coitada!! Coitados dos meus coleguinhas!!

    Beijaooooo

  5. mariana Says:

    Muito bom Lubis!!Como sempre!!
    Papo de coco sempre arranca bons risos!!
    Sempre relembro alguma coisa lendo as sua crônicas!!
    Lembro que ia toda perfumada pra escola e todos os dias mainha reclamava dizendo que estava muito forte!kkkkkkkkkkkk!! Coitada!! Coitados dos meus coleguinhas!!

    Beijaooooo

  6. Paula Says:

    "Revisão e pitacos" foi ótimo!

    vale registrar que, no último dia 5 de maio, ao receber a ligação de parabéns da filhota então balzaca Catarina, Sr. Mário comemorou: "não morri! não morri!".

  7. Mariana Says:

    fiquei o tempo todo lendo e lembrando de como você contaria essas estórias.kkkkkkk. Muito boas!

    Bjs

  8. Natássia Says:

    Boa forma de começar um domingo, com boas risadas. :)

  9. Ângelo Says:

    Meu intestino gosta de me sacanear e escolhe os piores momentos para queimar o meu filme... Lembro disso como se fosse hoje...

  10. catarina ribeiro Says:

    é mesmo, Paulete! ele disse isso pra mim. é que quando somos pequenos achamos que 60 anos é quase morte (ó que é morte? morte?). mas meu amado papito está aí firme e forte. hehehe. "cagaram embaixo da ponte" é massa. :)