PIPOCA FISIOTERÁPICA

O que leva alguém em sã consciência a prestar vestibular para Musicoterapia? Pergunte a alguém que fez isso, ora bolas, deve pensar o caro leitor. Pois bem, estou respondendo. Isso mesmo, eu fiz Musicoterapia. Não me formei, é verdade. Mas cursei seis dos nove semestres no casarão secular do Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador, cuja entrada principal fica na Av. Carlos Gomes, ali, pertinho do Largo Dois de Julho, e o portão dos fundos, na Rua do Cabeça.

Além de a concorrência ser de 0,5 candidato para uma vaga, ouso arriscar que 99% dos calouros não faziam a menor ideia do que a profissão propunha. Confesso que não tenho isso muito claro até hoje. Pessoalmente, acreditava poder ajudar os outros através da minha expressão artística predileta. Enfim, devaneios juvenis.

Veja bem, não estou afirmando que Musicoterapia não funciona. Estou convencido de sua aplicabilidade em determinadas situações – afinal, não há abordagem terapêutica que não dê nenhuma resposta como não há nenhuma que tenha todas. Apenas me desiludi com o curso em si e fui, simultaneamente, fisgado pelas Letras.

Meus três anos de Universidade Caótica, digo, Católica, foram muito proveitosos. Principalmente o trajeto de ida para as aulas: 12h30, debaixo daquele sol agradável do verão soteropolitano, pegava o busu com não menos que oitocentos passageiros confortavelmente amontoados uns em cima dos outros. Para melhorar, havia umas secundaristas de cabelo crespo que, com o intuito de realçar os cachos, empapavam as madeixas com Kolene, um condicionador capilar que, na realidade, deveria ser enxaguado após uso, mas que as garotas, nos idos dos anos 1990, usavam após o banho, exalando um cheiro característico de dar náuseas. Muitas vezes tive que fazer contorcionismo ao passar por uma delas para não dar um encontrão mais forte e uma das gotas amarelas, fragilmente pendendo de um dos cachos, pingar na minha roupa e manchá-la para sempre.

Já na Estação da Lapa, meu ponto final, gostava de andar vagarosamente observando os transeuntes. Tinha de um tudo: trocentos alunos do Colégio Central filando aula; trabalhadores batendo um rango numas bibocas imundas; infelizes que apresentavam a mesma receita médica há anos, pedindo ajuda para comprar um remédio para a filha doente; e, meus favoritos, os autodenominados Fanáticos de Cristo.

Eram dois caras que se vestiam de preto da cabeça aos pés, seguravam uns estandartes de aproximadamente 3 x 3 metros com trechos da Bíblia e, bem em frente a uma das mais movimentadas escadas rolantes, com uma caixa amplificada Ciclotron, berravam palavras de salvação para as almas perdidas. Simplesmente hilário.

Saindo da Lapa, seguia por uma ruazinha estreita e atrolhada de ambulantes por todos os lados. Lá, podia-se comprar desde agulha de vitrola até a miraculosa Pomada Sapucaina, que “cura dor de cabeça, pneumonia e coceira na vagina”. Sem contar que as estratégias de trotoir eram geniais, apesar de um pouco excessivas na questão do volume. Megafones, matracas, atabaques, gambiarras ligando alto-falantes, gogós atômicos, gritos histriônicos... nada parecia ser suficiente pra fisgar o cliente. A cada dia havia uma surpresa, fosse uma fantasia diferente, fosse uma promoção do tipo: 1 é R$ 3, 2 é R$ 6 e 3 é R$ 10! Como assim, 3 é R$ 10?! Promoção do cabrunco essa, viu?

Criatividade é o que não falta. Lembro que em uma das raríssimas vezes em que fui à praia, vi passar um ambulante com um cabo de vassoura à guisa de cabide no ombro, com os mais variados tipos de bronzeadores e afins pendurados em cordinhas. Ele caminhava ao longo da linha d’água gritando: bronzeadoooooor, bronzeadoooooooor... Logo atrás, outro rapaz, com uma caixa de madeira entupida de maços de cigarros, também anunciava seu produto: bronzzzzeador pra pulmão, bronzzzzeador pra pulmão.

Contudo, nenhum deles bate o vendedor de pipoca que encontrei na beira do Capibaribe, em Recife, quando esperava um ônibus no começo da noite. O trecho que consegui ouvir e copiar foi o seguinte:

Não se aperreie que é baratinha,
E foi feita ainda de tardinha.
Pegue seu ônibus com tranquilidade,
Não interessa sua idade.
Tu vai mastigando enquanto tá viajando,
Sentado ou em pé, sentindo o cheiro da maré,
E, até chegar lá,
Faz fisioterapia pro maxilar.

Este texto foi revisado por Paula Berbert

8 Response to "PIPOCA FISIOTERÁPICA"

  1. silvia Says:

    eu me lembro de 1 é 0,30, 2 é 0,60 e 3 é "pelo 1 real"...
    amei o bronzeador de pulmão e a fisioterapia pro maxilar!

  2. silvia Says:

    eu me lembro de 1 é 0,30, 2 é 0,60 e 3 é "pelo 1 real"...
    amei o bronzeador de pulmão e a fisioterapia pro maxilar!

  3. L. Bastos Says:

    Eu já vi esse cara do bronzeador de pulmão! rsrsrs E oh, fica tranquilo, essa coisa do Kolene já foi ultrapassada, os pessoal agora tá tudo trabalhado na progressiva. Fica sussa! rsrs

  4. Paula Says:

    fisioterapia pro maxilar boa mermo é ler suas crônicas!
    riso certo. me divirto!

  5. Mariana Paiva Says:

    Adorei.
    Depois diga que eu não te leio.
    rs

    beijo, dear

  6. CrisO Says:

    Ah que bom que você incluiu o vendedor da pomada de sapucaina. Tenho a maior saudade dele e guardo um arrependimento enorme por nunca ter comprado a tal da pomada milagrosa. Na boa, aquela pomada curava tudo!!
    Beijocas

  7. Priscila Says:

    Invariavelmente, excelente!

  8. TEUNATTY Says:

    rindo muuuuuito aqui kkkkkkkk
    estava precisando me animar mesmo
    thanks!
    :)