Domingo é o dia intergaláctico do ócio. Desrespeitar isto deveria ser crime previsto no código penal – mas, ao invés do pobre peão, iria para o xilindró o chefe, o mandante, seu algoz.Pois bem: domingo passado, às 13 horas, logo depois do almoço, quando bate aquela lombra dos infernos, me descambo até a casa de Leiloca pra labutar. Isso tá muito errado. Como assim, no sagrado domingo? Como assim?!
Já estávamos debruçados sobre as avaliações que corrigíamos por quase uma hora, até que procedi até a cozinha para beber água. Encostada na parede de azulejos à direita, havia uma fruteira com um par de maracujás, algumas maçãs, meio cacho de bananas e, voando sobre tudo isso, uma família de mosca de fruta.
Na hora, veio à minha cabeça: “Drosóphila Melanogaster”. Puta que pariu, mermão, me lembrei do nome científico que aprendera nas aulas de biologia com professor Mariano, em 1991. É impressionante a minha capacidade de armazenar informação inútil.
Sabe aquelas paradinhas amarelas utilizadas como parte da sinalização de ruas, que ficam presas no asfalto e, quando o farol do carro incide sobre elas, brilham? É, velhinho, também sei o nome: presilhões refletivos bidirecionais amarelos. Já a supracitada lombra que rola depois de bater aquela feijoada completa: maré alcalina pós-prandial. E cabra que tem somente um testículo não é mono-ovo: é monórquido.
O meu receio é estar ocupando espaço na minha já limitada memória e acontecer de, um dia desses, esquecer meu nome. Afinal, pense aí na teoria do copo d’água: depois de cheio, se continuarmos provendo mais líquido, parte do que está dentro transborda para dar espaço ao novo, né? Afe, que medo!
Tem gente, entretanto, com memória ilimitada. E devo confessar que oscilo entre a admiração e o desejo de trucidar com requintes de crueldade essas pessoas que recordam de detalhes ocorridos há mais de 24 horas. É ultrajante, um acinte, um desrespeito. Thiago Neri, meu amigo intelectual, chega ao ponto de, numa conversa descontraída, lembrar da roupa que Fulano estava usando no aniversário de Sicrano, quando disse o que a quem e, se vacilar, ainda diz quais eram as condições atmosféricas e os acontecimentos políticos internacionais daquela semana.
Perder as lembranças é uma forma de morte. Minha vovó e madrinha, Diva, vem sendo derrotada pelo Alzheimer. A única certeza é da morte física depois de, lentamente, ir se perdendo dentro da carcaça de carne e osso até desconectar do mundo, a ponto de sequer reconhecer aqueles que ela cuidou com o amor que somente as avós sabem amar.
Queria que ela tivesse mais tempo vívida, com o sorriso aberto de quando encontrava os três netos, fazendo bolo de chocolate, preparando a janta e trazendo em pratinhos personalizados enquanto assistíamos à TV... Queria que ela se lembrasse da única poesia de sua autoria, que recitava lindamente, mas que jamais se deu o trabalho, apesar dos meus apelos, de registrar numa folha de papel qualquer.
Alzheimer é uma desgraça. Só quem testemunha tem noção exata... E, obviamente, não sou único. Liana, uma antiga amiga, cuidou da avó, acometida pelo mesmo mal, até que ela desse o último suspiro – morreu em casa, rodeada de amor, entre os seus.
A mãe de Liana, em seus 60 e poucos anos, ainda sob a sombra do mal que assassinara sua progenitora, começou, prematuramente, a se preocupar com a morte. Na verdade, o grande medo de Dona Sandra é ser perseguida pelo alemão. Por ter se dedicado com tanto afinco ao bem-estar da velhinha nos últimos anos de vida e testemunhado o paulatino definhamento, anda meio apavorada com a possibilidade de passar pelo mesmo.
E sabemos bem: o medo causa as reações mais inesperadas. Laura, uma colega de colegial, certa feita, na hora do recreio, na área da cantina, tirou a camisa do uniforme, saiu correndo e gritando porque um inseto parecido com uma barata pousou em seu ombro. Apesar de a cena ter sido esdrúxula, fez muito sucesso entre aqueles adolescentes com taxas hormonais que atingiam a estratosfera. A imagem de Laura com seu Valisaire branco e calça jeans foi a razão de muitos banhos demorados daquela pirralhada.
Dona Sandra não partiu em disparada diante do temor nem, tampouco, ficou paralisada. Buscou equilibrar-se, ser racional, serena, juntou forças e escreveu, para os filhos, um guia de procedimentos caso ela perca a capacidade de funcionar socialmente sem depender de ninguém.
Com o devido respeito e autorização, reproduzo as partes publicáveis:
1. Faço cocô de manhã após comer alguma coisa e à noite. Portanto, nada de deixar que eu faça cocô na cama nem na fralda. Levem-me para o banheiro ou numa aparadeira, tá falado?
2. Coloquem câmeras escondidas para que a minha cuidadora não me maltrate.
3. Deixem um rádio ligado perto de mim, de preferência na A Tarde FM. De noite, deixem TV ligada para assistir à novela. Mesmo que pareça que não entendo, é sempre bom deixar na novela e no noticiário. Quem sabe não dá para entender?
4. Quero sempre estar cheirosa, e de talco no sovaco e no meio das pernas, não na perereca pra não entupir, entre as pernas.
5. De maneira alguma deixem tirar os meus dentes postiços. Quero sempre estar com eles. Se fizer uma cirurgia, tira na hora da cirurgia e depois coloca ligeiro.
6. A sobrancelha, sempre pintadinha de marrom claro.
7. A comida tem que ser gostosa, tá? Nada de passar tudo no liquidificador, pelo amor de Deus.
8. Um copinho de cerveja, de vez em quando, não faz mal pra ninguém, portanto, podem me dar, mesmo que os médicos não queiram.
9. Um ventilador sempre é necessário nos dias de calor.
10. Não me deixem sentir dor. Se eu manifestar dor, podem me dar uma maconha pra fumar ou um comprimido porradão.
Texto revisado por Paula Berbert


1 de abril de 2011 09:40
texto de rir contentona.
(até mesmo quando fala da parte triste das perdas que o Alzheimer causa... é uma doença indigna, mas que, fodamente, me deixa com orgulho de, por exemplo, ter visto Dona Anália se despedir do mundo sob o cuidado absoluto e incessante de toda a família. enfim...)
(domingo é dia de FANTÁRDIGO! minha meta é estar sempre livre aos domingos, para ficar só de perna pra cima.)
(adoro minha memória ilimitada! nhá!)
(JAMAIS lerei esta lista de orientações sem me embolar de rir.)
1 de abril de 2011 09:55
Deve estar cansado de ouvir isto, mas n custa nada reiterar hehehe: ótimo texto!
Quanto ao Alzheimer, acompanhei alguns poucos casos...o mais triste é testemunhar a morte de mentes tão intensas e brilhantes.
Um beijo e muita inspiração p vc!
1 de abril de 2011 10:12
°eba! Sou a primeira!!! nunca consegui essa facanha aqui! Tô com muita saudade, viu...
P.S. o ponto número 8 da lista da dona Sandra já entrou na minha lista também:-)
1 de abril de 2011 10:14
Porra, Cris, foi a terceira... mas é sempre a primeira!
1 de abril de 2011 10:14
oops! acabei de ver que nao fui a primeira a comentar coisa nenhuma. Minha memória até que é das boas, mas meu poder de observacao e minha inteligência internética sao péssimas hehehehe.
1 de abril de 2011 10:17
Oh amigo... Valeu pelo carinho e paciência com a lerdeza dessa sua amiga:-)
1 de abril de 2011 11:44
Esse alemão fdp tbm pegou minha avozinha, e ela mal sabe quem eu sou. Quando minha mãe lhe contou que eu havia me casado, ela disse:
"Que absurdo! Como vc pode deixar uma menina de 12 anos se casar???"
E olha que meus 12 anos já se foram há mais de 25...
abçs
2 de abril de 2011 03:36
Puxa, Lubis! Como você disse, foi a glória mesmo! Tive contato muito próximo com alguém que sofre de alzheimer, minha ex-sogra. O bom foi ver que havia a preocupação de oferecê-la a maior parte dos itens da lista. Ela sempre participa do brinde de natal, ano novo e do seu aniversário. Hoje ela está internada, mas sei que o filho fez o que pôde para dar-lhe todo conforto e dignidade possível, ainda que ela não mais fizesse ideia do que essas palavras significam.
Lindo!
3 de abril de 2011 09:40
Gostei do escrito!!! Você escreve muito bem!!!
Visite-me também!!
3 de abril de 2011 15:20
Minha voinha também teve esse Alemão como amante. A levou com ele, egoísticamente. Todos os dias, furtava de nós um pouco mais dela para si. A filha de italiano, que falava alto e reclamava dos presentes baratos que ganhava das noras, mas carinhosíssima com essa neta aqui, deixou de andar, de falar, de ouvir e de enxergar. Só depois de algum tempo conseguiu dormir para sempre. Espero que esteja tendo um sonho lindo.
Obrigada pelo texto, Lubis.
Eu fiquei emocionada.
Um beijo.
3 de abril de 2011 16:11
Acho a lista, além de super-mega-ultra-power engraçada, muito justa. Vou me inspirar para, quando necessário, (tentar) preservar meu bem estar e - é claro e principalmente - minhas manias.
beijocas!
4 de abril de 2011 02:40
Lu, o alemão é realmente implacável. Minha avó por parte de pai tb foi levada por ele. Lembro-me do começo de tudo, quando, aos poucos, ela ia esquecendo os substantivos e ficava chateadíssima com a falta da memória muito boa que sempre teve. Depois, vieram as conversas sem muito sentido com os familiares, quando ela já não reconhecia mais ninguém. Sempre nos esforçávamos para acompanhar os papéis e nomes que ela nos dava para deixá-la mais confortável. E, em seu entardecer, vi uma cena inacreditável; ela juntou as mãos, olhou para a minha mãe e cantou com sons uma música. A minha péssima memória seletiva nunca deixou que eu esquecesse desse dia. : )
22 de abril de 2011 08:04
Muito bommmm, adoreiiii o texto! Acompanhei minha vó, que morreu em 2001! Assim como vc, gostaria que ela tivesse mais tempo vívida, pois 3 anos depois nasceu Gabi (meu filho), seu bisneto! Seria legal se ela o tivesse conhecido! :)
23 de abril de 2011 16:35
E vc andou conversando com minha avó.
Que intimidade com minha véia.