Uma das primeiras coisas que falei foi “assaêna”, que, na língua dos bebês, significa bolacha de maisena. Nesta idade, pouco menos de dois anos, me satisfazia com pequenas coisas. A vida era bem mais simples.Junto com meu gosto pelo biscoito, cresceu o meu amor por certas palavras. Às vezes o significado, às vezes a sonoridade ou somente a imagem que forjam na mente. O mais interessante é que independe do idioma. “Farfalle”, borboletas em italiano, por exemplo, é o tipo de palavra vem acompanhada de um sorriso, pois faz cócegas no céu da boca; “vanish”, desaparecer em inglês (my independence seems to vanish in the haze, The Beatles), dá vontade de fazer xixi; e “banzo” enche a alma de tristeza...
Tchau é, talvez, a palavra que mais tenha dificuldade de dizer. Não que exija alguma manobra mirabolante da língua ou tenha um fonema peculiar. Simplesmente porque não gosto de ver quem amo partir.
Custei a calejar. Chorei nos primeiros dias de aula da pré-escola até a 4ª série primária. E não era por desgostar do colégio, muito pelo contrário. Porém, ver minha mãe ir embora me dava uma sensação de abandono e vulnerabilidade indescritíveis. Era como se arrancassem um pedaço de mim.
As despedidas são, pro bem e pro mal, tão frequentes quanto os encontros. Sendo assim, não há muitas alternativas a não ser se resignar com as partidas de quem queremos bem. E, vamos combinar uma coisa, ir é melhor que ficar, né não? Há o frio na barriga pelo novo, pelo desconhecido, pela aventura, pelo frescor do porvir. Partir é dobrar esquinas ininterruptamente.
Indo ou ficando, afastar-se dos amores é nutrir saudade... que, por sinal, é uma exclusividade da língua portuguesa, apesar de ser sentida em qualquer dialeto.
Em 1998, quando fui estudar inglês em Exeter, cidadezinha no interior da Inglaterra que oferece aos seus visitantes o indescritivelmente delicioso Cream Tea (scones com creme de nata e geleia), quase não consegui me despedir dos amigos que fizera lá. A internet era incipiente e as perspectivas de reencontrá-los quase inexistiam. Felizmente, subverter a probabilidade é um dos meus passatempos e, no decorrer destes anos, mantive contato e reencontrei alguns deles, como Yuki, amiga japonesa que em 2002 foi passar o ano novo comigo e Lua, então minha esposa, em Bremen, norte da Alemanha.
Na minha segunda semana de aula, que também era exatamente a metade da minha estada, Yoshi, um Japa sorridente de 1,90 m, que estudara por quase seis meses na ISCA SCHOOL, retornou para Tokio. E, no seu rastro, foi a vividez da cantina durante os intervalos. Tudo ficou meio opaco, os sons mais abafados, os olhares mareados e os sorrisos raros, muito raros.
No primeiro dia sem Yoshi, ficamos na sala, após a aula, eu, Yuki e Lena. Conversamos pouco e exercitamos o silêncio que só era interrompido por passos no corredor. Três pessoas, um sentimento. Nada precisava ser dito. Cada um no seu canto – eu agredindo um violão empenado e sem a 4ª corda (sempre a 4ª corda), Yuki escrevendo algo no seu diário e Lena com olhar perdido – buscava subterfúgios para suportar aquele vazio. Fazíamo-nos companhia, mas nos sentíamos sós. Assim é a solidão: um manto turvo, úmido e gelado que nos envolve num canto escuro no quarto bem no final do corredor de um sobrado com paredes descascadas e taco irregular.
Lena, num raro rompante nipônico, questionou:
– Lubisco, como se diz “I miss you” em sua língua?
Expliquei que, talvez, a minha língua fosse a única que tivesse um substantivo para expressar este sentimento de “alguém sozinho a cismar”. Fui ao quadro branco, peguei um piloto vermelho e escrevi. Ensinei a pronúncia e minha little sister (ela me chamava de my older brother) repetiu diversas vezes até dar-se por satisfeita, como se tivesse, finalmente, internalizado... a palavra, pois o sentimento já criara raízes profundas.
Estudei com afinco pelas duas semanas que me restavam. Vivi intensamente as novas amizades, cheguei até a amar o frio que tanto me maltratara. Ficamos íntimos. O vento gelado nos meus cílios molhados de manhã cedo me fazia sentir vivo; a cafeteria no fundo da Catedral virou minha maior amante; a escola, meu abrigo; o aquecedor elétrico portátil, meu confidente.
Sem dúvidas, até então, os 15 dias mais intensos de meus 23 anos. Contudo, havia uma rodoviária em uma manhã chuvosa de sábado no meio do caminho. Ali, sem glamour algum, partiria pra Londres, onde começaria minha longa jornada de volta pra casa. Era hora de dizer adeus.
Às sete horas eu estava frente a frente com Gill e David, na porta de entrada da nossa casa, 42, Posloe Road. Andamos até o portão de madeira que ligava o jardim à calçada, apertei a mão de David e agradeci. Sem sorrir, mas com um tom de voz diferente do usual, ele acenou com a cabeça, mudo. Gill, chorosa, me fez chorar quando me puxou, deu um abraço desajeitado, se afastou novamente, arrumou meu casaco e disse:
- We’ll miss you... a lot.
O táxi chegou meio minuto depois de a primeira lágrima escorrer pelo meu olho esquerdo. Apressei os movimentos, arremessei meu mochilão na mala do carro e segui, naquele infindável caminho de sete minutos, em silêncio, tentando ver através da neblina que insistia em impedir minha despedida da paisagem que se tornara lar nos últimos 28 dias.
O amanhecer inglês no inverno não tem nada de belo. Um vento afiado açoita sem piedade e o lusco-fusco causa um desconforto como se tudo ali fosse uma grande tela de cinema fora de foco. Não há muito a fazer a não ser esperar que os primeiros anúncios da alvorada surjam no horizonte e, para os de fé, rezar para que não tardem.
Paguei a corrida, resgatei minha bagagem e ao virar avistei o que seria, nos meus últimos minutos em Exeter, minha ilha tropical. Yuki e Lena, ombro a ombro, em pé, esfregando as mãos protegidas por luvas coloridas que contrastavam com seus casacos de tom sóbrio e ensaiando um sorriso que era possível naquele frio infernal, esperavam para se despedir.
Prometemos manter contato via carta e juramos amizade eterna. Ouvimos os sons da cidade que ainda adormecia, pois pouco conseguimos falar. Aí, chega o ônibus.
Respeitosamente, diante de Yuki, inclinei meu corpo para frente como fazem os judocas ao entrar no tatame. Estendi meu braço e apertamos a mão nos encarando fixamente. Eu sorri e, em retribuição, ela chorou. Dei um passo ao lado e peguei na mão de Lena, que olhava pra sua bota de couro, provavelmente, tamanho 33. Com meu indicador, levantei o seu queixo para ver, pela última vez, o rosto que me esperara sorrindo todas as manhãs. Não sorria. Quando ia soltando sua mão, ela me puxou, me deu um abraço e sussurrou no meu ouvido:
– “Sodade”.
Texto revisado por Paula Berbert


15 de março de 2011 21:35
ave maria, lubis.
logo hoje que eu tô sentindo uma saudade que não sei bem do que (aliás, acho que sei um pouco, rs), leio seu texto.
eu ODEIO sentir saudade.
é um sentimento lindo, como tudo que envolve um pouco de drama, hehe, mas eu detesto sentir isso.
ao mesmo tempo, sinto um orgulho danado de não precisa formar uma oração pra dizer que sinto falta de alguém.
me deu vontade de assistir Once agora =/
beijo, adorei o texto.
15 de março de 2011 21:41
ave maria, lubis.
logo hoje que eu tô sentindo uma saudade que não sei bem do que (aliás, acho que sei um pouco, rs), leio seu texto.
eu ODEIO sentir saudade.
é um sentimento lindo, como tudo que envolve um pouco de drama, hehe, mas eu detesto sentir isso.
ao mesmo tempo, sinto um orgulho danado de não precisar formar uma oração pra dizer que sinto falta de alguém.
me deu vontade de assistir Once agora =/
beijo, adorei o texto.
15 de março de 2011 23:36
como disse, o mau de ler o texto antes e fazer considerações diretas é gastar meus argumentos para falar aqui...
então, além de repetir que você acertou em cheio no tom, que as palavras todas – elas mesmas, que você ama – estão expressando cada sentimento de forma muito intensa, que os significados estão transbordando para dentro de quem lê, e que você tem talento para a escrita nos mais diversos estilos... digo agora, também, que este gosto de nostalgia, tantas vezes ardido, é a prova de que somar saudades pode ser um presente, um rastro das alegrias. e, mais que isso, é possível que as rupturas nos movimentem para frente, para que novos encontros venham, mesmo que com as mesmas pessoas.
já disse o poeta Eduardo Lubisco (xô ver se eu lembro):
"há fotografias que jamais amarelam e, ainda que originalmente em preto e branco, trarão sempre memórias coloridas".
16 de março de 2011 06:36
amigo, que bonito! você deveria traduzir e enviar para a sua amiga, com certeza ela vai adorar. e manda de carta.....
beijos!
16 de março de 2011 06:49
"Subverter a probabilidade". Adorei isto, adorei o texto todo, só fiquei com raiva pois agora estou sentindo "Sodade" dos amigos Yuki e Lena, amigos meus também agora que li seu texto, que me transportou para este momento de forma tão real, que suas memórias agora são minhas também.
Parabéns irmão, está escrevendo de forma brilhante e o principal, com muita verdade.
16 de março de 2011 07:32
Lindo. essa descrição da solidão vou levar aos pedaços por aí.
abraço
16 de março de 2011 08:29
Simplesmente maravilhoso!!
Escrito com uma riqueza de detalhes incrível. Adoro isso!!
Saudade descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor e é isso que sentimos ao ler esse texto.
Você é uma caixinha de surpresas! Quando acho que não tem como melhorar...voce vem e surpreende!
Beijos!
16 de março de 2011 13:09
Não tenho mais palavras para tecer comentários. O que posso dizer é que agora, da mesma forma que esse texto é meu (assim como de todos os outros leitores) essa saudade também me pertence. Impossível não pertencer, depois de referências tão vívidas. Um sentimento que nos torna masoquistas, não é verdade? Queremos nos encolher cada vez mais no canto desse quarto escuro. Depois de um texto como esse, então, não tem como não querer curtir a lembrança de quem está, de alguma forma, longe. Mas a vida é dinâmica e nos empurra pra frente, mesmo quando queremos ficar.
Bj. Ah, sim, preciso dizer que adorei?
16 de março de 2011 13:10
Não tenho mais palavras para tecer comentários. O que posso dizer é que agora, da mesma forma que esse texto é meu (assim como de todos os outros leitores) essa saudade também me pertence. Impossível não pertencer, depois de referências tão vívidas. Um sentimento que nos torna masoquistas, não é verdade? Queremos nos encolher cada vez mais no canto desse quarto escuro. Depois de um texto como esse, então, não tem como não querer curtir a lembrança de quem está, de alguma forma, longe. Mas a vida é dinâmica e nos empurra pra frente, mesmo quando queremos ficar.
Bj. Ah, sim, preciso dizer que adorei?
16 de março de 2011 14:30
Que lindo amigo... Tô vivendo um momento desses agora. De ter de me despedir de uma grande amiga aqui. Seu texto me fez chorar e me deixou perplexa com as coincidências: hoje emsmo eu estava falando de saudade e despedidas, aí chego aqui e seu texto trata exatamente disso...
sodade de você também...
P.S. O comentário de Dani Castelani também foi lindo e também me fez chorar... tô chorona demais, ou é muita saudade?
16 de março de 2011 15:14
Lindo...muito lindo...me lembrei de cada uma das partidas... que "manto" que faz doer...
Bjo
18 de março de 2011 15:13
Ai, Lubis, dessa Brighton acizentada, onde (como vc bem descreveu) a saudade e uma constate, me emociono com suas palavras. Lindo texto. beijos.
20 de março de 2011 15:39
Após ler seu texto, que por sinal me emocionou de forma inenarrável, eu decidi googlar a palavra saudade só pra ver como tal sentimento foi posto em palavras e olha o que achei:
Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".
Só quem sentiu saudade sabe o quanto dói, o quanto ela machuca e o quanto ela nos deixa indefesos, vítimas do tempo, que até então é o único remédio para a mesma.
Parabens, Lubis! ;)
21 de março de 2011 19:27
espero que o senhor ja esteja ciente de que citarei as linhas de vossos verbos acerca da suadade por um longe tempo!
28 de abril de 2011 06:00
Lubisco,
parabéns pelo texto!! Terminei emocionada e vivenciando a sua saudade como tantas que temos e vamos carregando pela vida.
beijo!