


Se eu disser que existe um cara lindo, simpático, de conversa agradável, educado e gentil, psicólogo por formação e vocação, fotógrafo, esportista, com muitos carimbos no passaporte, que toca violão, saxofone e é heterossexual, muita gente vai duvidar. Pois é, esse feladaputa não só existe como é meu primo.Marcelo, ou Celinho – pois já havia outro Marcelo na família Lubisco –, é o segundo filho de minha Tia Graciiiiiiiiinha, mora em Porto Alegre e, sim, reúne todas as qualidades supracitadas. Quem disse que a vida é justa tava de sacanagem, hein? Isso tá muito errado, muito errado mesmo! Putaquepariu, como assim lindo-simpático-conversa-agradável-educado-gentil-psicólogo-por-formação-e-vocação-fotógrafo-esportista-com-muitos-carimbos-no-passaporte-toca-violão-saxofone-e-é-heterossexual, mermão?! Como assim?!
Pois bem, Marcelinho achou os filmes 8 mm de nosso avô Humberto com imagens das décadas de 1940 e 50, quando nosso pais e mães (Nei, Hedy, Nídia, Graça, Carlos, Beto e Rico) eram crianças, digitalizou tudo e deu de Natal para cada núcleo familiar em 3 DVDs.
Tive a chance de ver minha Vó Ilka, de que me recordo apenas praticamente se arrastando com auxílio de bengala, andando normalmente e até jogando algo semelhante a vôlei, na praia. Minha mãe, com não mais de oito anos, de vestidinho, laço de fita na cabeça, cheirando flores de um arbusto e dançando, exclusivamente para a câmera, na companhia das duas irmãs. Meus olhos ainda enchem de lágrimas com a lembrança das imagens.
Mas nem tudo são flores. A família toda ficou chocada com um detalhe. Tio Nei, pelos dois ou três anos de idade, com longas madeixas cacheadas, usava roupas de menina! A princípio, seus irmãos, enquanto assistíamos numa sessão conjunta, tentaram contemporizar dizendo que era assim mesmo, era o normal... mas, de repente, não mais que de repente, surgiu uma cena em que diversas crianças brincavam juntas e adivinhe qual era o único guri com roupa de guria? Sacanagem!
Tio Nei, que é casado com Tia Maria Eugênia e tem três filhos, não está sozinho. O Piu-Piu, do Frajola, é, em tese, macho. Dá pra acreditar? Nenhum bicho macho fala em falsete: "Eu acho que vi um gatinho. Eu vi, eu vi um gatinho!". Sem falar de Bambi. Aquele veadinho delicado e frágil, caso fosse humano, teria o cromossomo Y. Inacreditável!
Por sinal, havia, metaforicamente falando, diversos destes exemplares no caminho – candidamente batizado de Transviadônica – que ligava o Instituto de Letras com o Instituto de Dança da UFBA, cortando um trecho de reserva de Mata Atlântica. Na realidade, ambos os institutos são vastamente povoados por bichinhos saltitantes e borboletantes que assistem a’O Casamento do Meu Melhor Amigo e se identificam com aquele carinha que, na cena final, dança com a personagem de Julia Roberts.
No Instituto de Letras, onde fiz a minha graduação, sistematizei o meu gosto pela literatura... pro bem e pro mal. Se por um lado reli Vidas Secas, para acabar com o trauma da adolescência quando me foi imposta a leitura deste clássico de Graciliano Ramos (saboreei cada silêncio do Sertão, magistralmente caracterizado linha após linha), por outro tive que ler inúmeros autores cujas obras foram meu mais eficaz remédio contra insônia. Ainda assim, tendo que vencer as toneladas de minhas pálpebras, somente debruçando-me (sem nenhuma conotação borboletante) sobre os intermináveis períodos de No Caminho de Swann (perdoem-me amantes de Proust, mas um período que se alonga por mais de uma página inteira me enche os culhões), por exemplo, tive uma percepção maior das nuanças. A paleta de aquarela do meu cotidiano ganhou novos tons.
Ler é bom... para mim. O hábito da leitura não é, necessariamente, nobre. É nele que me torno uma pessoa melhor, mas para Clara e Breno pode ser na música ou, quem sabe, no cinema. E, ainda assim, se não for em nenhuma expressão artística, lamento apenas, sem jamais recriminar. Importante mesmo é ler a vida.
Acredito, contudo, que o acesso à literatura deva ser facilitado. Mais e melhores bibliotecas públicas, estímulo ao uso das bibliotecas e livros mais baratos não solucionam, mas ajudariam no processo.
Nesta minha estada em Brighton, cidade litorânea a 50 minutos de Londres, durante 20 dias do inverno de 2011, fiquei impressionado como livro é barato no Reino Unido. Quem quiser edições mais sofisticadas tem que desembolsar mais Libras. Fair enough. As edições de capa mole e papel jornal, todavia, são baratérrimas. Não lê quem não quer... e é assim que deve ser.
Foi pertinho de Brighton, em Londres, numa noite de chuvisco e vento frio cortante, que uma situação me fez lembrar Mário Quintana, meu poeta predileto e eterna leitura de cabeceira. Cético que era, quando perguntado certa feita sobre vida após a morte, disse que preferia a terrena mesmo, pois no além teria que conviver com os chatos de várias gerações e aqui, convivia somente com os da dele.
Foi justamente nesta mesmo aqui que convivi compulsoriamente, por eternos míseros minutos, com a pessoa – uma recém pós-adolescente – mais chata e sem noção do mundo-mundial-super-extra-maxi-ultra-turbo-faixa-preta-terceiro-dan-ninja-samurai².
PUTAQUEPARIU, mermão. Me mire, mas me erre. Sai pra lá, coisa ruim.
A Enviada do Capeta sentou ao meu lado no teatro onde assisti ao musical Billy Elliot. No intervalo entre a primeira e a segunda parte, percebendo que eu era brasileiro, danou-se a puxar assunto enquanto mantinha-me monossilábico, ainda curtindo as emoções da exibição. A Personificação da Chatice não se dava por rogada e insistia intermitentemente. Em determinado momento, disse que queria ir a Liverpool só pra tirar uma foto atravessando a Abbey Road. Aí não me contive:
– Você pode, e até deve, ir a Liverpool, mas pra atravessar a Abbey Road é melhor, quando acabar o musical, pegar um metrô bem aqui na frente, na Victoria Station, pois é em Londres, querida.
– Eu já estive aqui em Londres várias vezes e não é nada. Nunca vi, nem no Google Maps.
– Bem, semana passada eu e mais uns 5 mil turistas tiramos foto lá. Mas deve tá todo mundo enganado, já que é em Liverpool.
Quando, num vacilo meu, a Encarnação do Tédio descobriu que eu era amigo de Fau, esposa do dono da empresa de turismo em que ela estava em lista de espera para Liverpool, largou:
– Você acha que se eu for lá amanhã e molhar a mão de algum funcionário, consigo que tirem alguém e me coloquem no lugar?
– ...
– Acho que não. Se fosse no Brasil, né?
– ...
– Lá em Natal, quando se vem de uma família influente que nem a minha, basta dar um dinheirinho pra pessoa certa que se consegue tudo mais fácil.
Foi neste momento que quase – faltou quase nada – peguei o meu cachecol e estrangulei a Apologia ao Mau-Caratismo, a sangue quente, muito quente. Respirei fundo, contei até um milhão, fiz de conta que não era comigo, liguei o botão da audição seletiva, que funcionou perfeitamente até o grand finalle:
– Eu já nasci velha. Não gosto de balada, festa, nada disso. Só gosto de programas diferenciados porque sou culta, sabe? Já assisti a todos os musicais daqui.
– ...
– Mas minha grande paixão, o que eu amo mesmo nesta vida, é ler. Comprei 18 livros, todos clássicos, tipo Stephen King.
– ...
– E leio muito: uma média de sete livros por ano.
Escataploft, caí da poltrona.
Este texto foi revisado por Paula Berbert


7 de fevereiro de 2011 04:40
Genial!!
Parabens!
Adorei!
7 de fevereiro de 2011 07:08
Benza Deus, Celinho! Benza Deus... Só faltava o título: "solteiro". Aí sim ia ter de levar pr'aquele quadro do Fantástico, que desconstrói mitos.
E o cão que benze essa mulé dozinferno. Fico com odinho.
7 de fevereiro de 2011 07:49
PQP, que pessoa é essa?? Essa criatura existe mesmo??? Amei o texto, Lubis (mais uma vez). Me acabei de rir! Não sabia que vc curtia tanto Quintana... eu amo tb. Tem uma frase dele que é uma das coisas mais lindas que já li na vida : "sonhar é acordar-se para dentro".
Bjo
7 de fevereiro de 2011 10:41
Vou ter pesadelos com essa menina para sempre. Nunca vou esquecer esse eoísódio e - o melhor - a sua cara, revirando os olhos, a cada asneira que ela botava pra fora da boca.
surreal!
bjocas
7 de fevereiro de 2011 14:11
Lubisco,
É muita "sorte" encontrar uma criatura dessa do seu lado, do outro lado do oceano.
Ainda bem que a gente acaba se divertindo com as suas tragédias.
abração!
7 de fevereiro de 2011 17:04
Na moral man, acho que vc tem um imã pra atrair essa galera chata. hahahaha.
Belo Texto.
8 de fevereiro de 2011 04:06
Ô Dani, engracado que Lubi sempre disse que é quem sou dona desse tal ima aí... Acho que ele pegou de volta, né? Que bom pra mim...
Lubi, e o gatao maravilhoso é solteiro? tem um monte de gente aqui querendo saber:-)
Beijocas
9 de fevereiro de 2011 06:06
REALMENTE SEU PRIMO NAO É BONITO NAO, ELE SE EXIBE!!kkkkkkkkkkk!!!
Com todo respeito!!
10 de fevereiro de 2011 19:46
Hahahahahaha... Cadê o badogue pra essa figura sem noção from hell???
Cadê seu primo, que não mora em SSA??? Seu humor, graças a Jah... ops, a você, continua no mesmo lugar! Gostei muito do texto!
bjs
22 de março de 2011 21:19
muito bom o texto, como sempre!
do marcelo, só faltou falar que ele é comprometido e que a namorada dele é linda, querida e perfeita, né... heheheheheh
abraço