Depois de emagrecer quase 20 quilos, precisei me render à tortura voluntária da musculação: todo santo dia, chova ou faça sol, me estrebucho por meia hora correndo na esteira feito um rato de laboratório e depois beiro o suicídio carregando peso. É odioso!Durante a sessão dos infernos, derreto meu cérebro com o mp3 no talo, geralmente, ouvindo doces canções do System of a Down, Iron Maiden, Sepultura e Rammstein. Não sorrio, não sou simpático, não converso. Faço minha porra e vou embora.
Apesar de ter sucumbido ao exercício físico sistemático e periódico por um nobre motivo – não queria conviver com pelancas balançando quando eu requebrasse ao som de um pagodão no carnaval soteropolitano -, reconheço que malhação é um subproduto da nossa sociedade contemporânea de alta tecnologia e comida atochada de gordura trans.
Entupimos o bucho com salgadinho, biscoito recheado, suco de caixa, refrigerante, batatinha frita, coxinha, chocolate, uma inimaginável variedade de hambúrgueres e tantas outras guloseimas que só de pensar sinto minhas células adiposas se multiplicarem freneticamente. Não caminhamos mais até a padaria da esquina, vamos de carro; pegamos o elevador para subir até o primeiro andar; usamos o controle remoto para... bem, para quase tudo! Nosso sofá é nossa casa.
Quando morava em Bremen, não precisei frequentar academia pela natureza do meu trabalho. Era empregado da Ospig, uma distribuidora de roupas e acessórios fabricados, por questões financeiras, no Camboja, provavelmente por crianças em condições insalubres. No meu contrato trabalhista estava escrito, em alemão: responsável por controle logístico. Em bom português era: carregador-de-caixas-cheias-de-calças-jeans-pesando-quase-25-quilos. Putaquepairu, mermão! Quem precisa de academia? Quem?
Foi naquele galpão com pé direito de uns 10m e intermináveis corredores feitos de caixas com roupas, que conheci pessoas interessantíssimas. Uma senhora, nos seus 60 anos oriunda da antiga DDR (Alemanha Oriental), que falava do socialismo com muita nostalgia; uma turca e uma curda que, sabe lá deus como, eram amigas; um togolês que, apesar de morar a um quarteirão do trabalho, todos os dias, logo após bater o ponto, ao invés de ir para o nosso departamento, ia ao banheiro. Certa vez perguntei, com meu alemão tupiniquim:
- Papa Iaútsi, porque você espera chegar aqui pra ir ao banheiro. Vá em casa que é melhor, né não?
- É, mas em casa eu cago de graça e aqui eu tô sendo pago pra cagar!
Putaquepariu! Gênio de uma raça, pensei.
Havia ainda umas coroas polonesas que me tratavam como um bebezão, pois toda vez que tentava falar na língua de Ghoete, devido à minha incompetência linguística, soava como uma criança de seis anos e elas, invariavelmente, reagiam, passando a mão em meu cabelo: “que gracinha.” Um dos caras que mais me aproximei, por afinidade e por falar inglês fluentemente, foi Francis, um gambiano de 1,80m e 110 kg de pura massa muscular. O cara era um armário! Não tinha certidão de nascimento, tinha escritura.
Certa feita, Francis contava a mim e a Georgious, um grego nascido e criado na Alemanha (sim, isto é possível porque o critério de nacionalidade germânico não é a territorialidade, mas, sim, a ancestralidade), alguns detalhes da organização sociopolítica da Gâmbia.
Duas coisas nos chamaram muito a atenção: o fato de o governante da época ter ambições de guerrear com o Senegal - mesmo este tendo, só no exército, mais soldados do que toda a população gambiana - e de a aeronáutica contar somente com um helicóptero que era utilizado pelo único piloto do país: o governante.
Sabe aquela gargalhada muda? Pois bem, gargalhamos com o corpo inteiro e lágrimas correram soltas. Francis, não se dando por rogado, continuou:
- Mas, no final deste ano, chega mais um helicóptero. Já foi comprado da França. É usado, mas tá novinho.
- Vocês deviam começar se preocupar com George Bush..., retrucou Georgious.
- Devemos? Por quê?
- Vocês tinham um, agora tem dois. Simplesmente duplicaram o poderio aéreo. Mr. Bush pode querer invadir a África, em nome da paz.
Gargalhada muda!
No final do expediente, eu e meu amigo grego pegamos o mesmo bonde, com destino a DOMSHEIDE, onde ele saltaria para baldear e eu, para comprar um livro de capa dura com a história do The Police e 4 CDs, comportando sua discografia completa. Foi neste trajeto de meia hora que vivenciei sentimentos de resignação, revolta e satisfação num intervalo de parcos 10 minutos.
Íamos sentados frente a frente, conversando trivialidades em inglês. Num determinado momento, um senhor de longos cabelos brancos e dentes amarelos, cheiro nauseabundo de bebida, cigarro, jeans morrinhento de suor acumulado pela ausência de higiene pessoal, entrou e ficou em pé de maneira que me enxergava de frente.
Por alguns instantes, o velho ia perdido no seu mundinho, confeccionando, em escala industrial, cigarros com tabaco vagabundo e papel de seda. Mas, ao perceber que falávamos outra língua, deu início a um festival de impropérios em alto e bom som para quem quisesse ouvir.
- Esses estrangeiros de merda que vêm de umas terras de merda roubar a Alemanha dos alemães. Deutchland über alles!
Vi os olhos de Georgious se encherem de revolta e o contive, segurando-o pelo braço, quando ameaçou revidar.
- Relaxe. Isso é para mim, não é para você. Esse junkie não vale à pena.
- Mas isso é errado, Lubisco. Quem ele pensa que é?
- Eu sei, mas... sei lá, simplesmente não vale a pena mesmo.
A determinada altura do trajeto, logo antes da Estação Wilhelm Kaiser Bruecker, onde normalmente saltaria, entrou uma jovem negra com sua filhinha, ainda de colo, e sentou-se ao nosso lado. Estranhamente, por aquelas bandas, sorriu e deu boa tarde. Sorrimos de volta e por alguns segundos permanecemos calados. Segundos suficientes para ouvir barbaridades, vindas daquela boca fedida...
- Este bonde é feito por alemães para alemães e não para macacas carregando macaquinhas.
Georgious levantou abruptamente. Falhei ao tentar impedi-lo, receoso que partisse para cima do fétido imbecil. Para minha surpresa, entretanto, ele se dirigiu ao primeiro vagão e conversou rapidamente com o condutor. Sentou-se ainda ofegante com aquela ira que deve ter elevado nossa pressão arterial a níveis estratosféricos, mas, olhando carinhosamente para a mamãe e sua cria, disse que tudo estava resolvido.
Quando o Bahn #6 parou na estação seguinte e as portas automáticas se abriram, vimos, a menos de 2 metros, um carro da Polizei parado. Quatro oficiais saltaram e, sem pressa alguma, andaram até nossa direção. Sem empunhar arma, ameaçar ou aumentar o tom da voz, o mais baixinho, mas não menos invocado que seus pares, encarou o nazista feladaputa, esticou o braço horizontalmente, cerrou o punho deixando apenas o indicador livre para fazer aquele típico gesto de “venha cá, babes”:
- Saia.
- Mas... mas... eu não...
- Saia...
- Calma, veja bem....
- Sa-ia i-me-dia-ta-men-te!
Transporte público urbano é, sem sombra de dúvidas, uma grande fonte para estudo sociológico, em qualquer lugar do mundo mundial.
No mês passado, quando Jane, a, como chamam os politicamente corretos, secretária do lar que trabalha conosco há mais de 10 anos, fez aniversário, comemoramos com uns presentes e um bolinho só pra cantar o Parabéns e registrar a data (e talvez aplacar nossa culpa pequeno-burguesa). Ela fez questão de levar um pedaço do bolo para o motorista, o cobrador e alguns “colegas” de transporte.
No dia seguinte, ela contou que, ao entrar no ônibus, “os colega do carro tavam me esperando com um bolo, uns docinho e guaraná de laranja. Cantaram parabéns e tudo!” Como assim, festa surpresa no ônibus, mermão? Como assim?! Emocionante! PUTAQUEPARIU! Fodástico.
Quando sofri o acidente de moto que me feriu os braços, a alma e deixou uma cicatriz na perna esquerda de Paula Berbert, tive que pegar ônibus algumas vezes, enquanto a minha filhota de 660 cilindradas era recuperada. Num destes passeios forçados, os termômetros de Salvador marcavam 37°C e as nuvens tinham se recolhido na linha do horizonte pra regozijar o azul anil do firmamento. Ou seja, o inferno com uma bela moldura.
Eu ia sentado à janela me controlando pra não botar a cabeça pra fora. Ao meu lado, uma senhora nos seus 70 anos e, em pé, próximos a ela, dois estudantes secundaristas. O mais gordinho suava em bicas. Lá pelas tantas, fez um comentário para o colega que foi prontamente retrucado com espanto e revolta pela tia septuagenária:
- Puta que pariu! Que calor do caralho!
- Oxe, menino. Olha o vocabulário! Respeite a presença dos mais velhos!
- Meretriz que deu a luz! Que calor dos testículos!


7 de janeiro de 2011 15:39
Seu post me causou várias gargalhadas silenciosas. Minha mãe acha que eu sou louca, por ficar rindo sozinha no pc enquanto leio blogs ;p
Policia Alemã eh um exemplo para os brasileiros *0*
:*
8 de janeiro de 2011 13:33
Sensacional! Gosto de cada pequena história!
10 de janeiro de 2011 10:55
impossível ler Jane, depois de tantos nomes estrangeiros e anos de estudo em inglês, e não tentar pronunciar 'Dheine' :)
11 de janeiro de 2011 07:13
Lubi ADOREI!!!Pude ouvir sua voz contando a estória. Tô terminando um post sobre tansporte público também, depois te mando o link. Adorei a estória, por sorte babacas como o que vocês encontraram no Bahn aqui sao figuras cada vez mais raras em Bremen. Mas as estórias dos busus de Savador gracas a deus sao muitas e todas fascinantes:-). Beijocas
12 de janeiro de 2011 13:00
Oi Lubisco, adorei suas pequenas estorias dos transportes publicos norte alemaes e baianos... adoro sua forma de contar, fico rindo o tempo todo :)...Beijos do Marrocos
17 de janeiro de 2011 16:31
Lubisco,
aproveitando as suas histórias. Sem duvida o popular buzu é uma fonte rica de histórias, mas ainda acho que banheiro feminino empata ou ganha em fecundidade.
parabéns pela leitura sempre divertida!
22 de janeiro de 2011 04:47
22 de janeiro de 2011 11:37
Pior, bem pior, que a cicatriz na perna esquerda é o apodrecimento definitivo da unha do dedo mindinho do pé direito.
23 de janeiro de 2011 12:29
Pior, muito pior, que a cicatriz na perna esquerda foi o apodrecimento definitivo da unha do dedo mindinho do pé direito.
9 de fevereiro de 2011 06:03
Me divirto horrores lendo suas crônicas, do mesmo jeito que me surpreendo com elas também!
Nao para de escrever!! beijos