Nídia, minha mãe, bibliotecária de formação e professora do Instituto de Ciências da Informação da UFBA, criou os três filhos praticamente sozinha. Lembro-me do dia em que, dirigindo seu fusca branco, disse a mim, Nana e Kika que estava se separando de meu pai. Eu tinha, então, seis anos. Não fui tomado por nenhum sentimento de tristeza e me senti um pouco culpado diante do choro intenso de Nana, a mais velha, com nove anos. Minha mãe sempre nos presenteou muito com livros. Crescemos familiarizados com os diversos mundos construídos pela imaginação infantil à medida que líamos. Talvez por isso tenha me tornado um incansável perguntador. Leitura aguça a imaginação, afia a curiosidade, calibra a percepção e afina a sensibilidade.
Até o divórcio, morei numa casa perto da Av. Paulo VI, com o maior jardim do mundo mundial. Era quase o País das Maravilhas, de Alice. Ali, tudo se encontrava... e se perdia. Os dois cachorros, Xerife e Totó, se transformavam em abomináveis monstros, os cantos, em esconderijo, as formigas, em soldados, a mangueira, em uma torre pro céu, e as lagartas de fogo, em lagartas de fogo mesmo. Acho que me queimei umas 20 mil vezes, pelo menos.
Eu, aficionado por Tarzan, vivi incontáveis aventuras no gramado mais verde da minha lembrança e, por vezes, além dos limites do muro de nossa residência na Rua das Acácias. Conta minha mãe que eu não me arriscava na grama sem ter um pedaço de madeira qualquer à guisa de faca presa no elástico no short adidas de pano. Naquele universo, eu era Tarzan e, rolando na grama, derrotava crocodilos e cobras gigantes que queriam invadir a casa, pulava de cipó em cipó gritando a plenos pulmões para afugentar animais ferozes que habitavam aquela região e cuidava dos bichinhos mais frágeis até o imperativo chamado da Mãe Natureza ecoar:
– Hora do banho!
Houve um verão, afirma Nídia, que tia Graça e seu cônjuge, tio Paulo, vieram a Salvador para curtir uma praia de verdade, coisa que não se acha no litoral do Rio Grande do Sul. Fomos no esquema farofada: uma garrafa com suco de abacaxi com beterraba, sanduíche de queijo, ovo cozido num frasco de vidro com água e sal, além de uns biscoitinhos recheados porque ninguém é de ferro.
Os adultos ficavam sentados nas toalhas papeando, fazendo uma boquinha, fumando um cigarrinho e observando o movimento da prole enquanto eu, digo, Tarzan explorava as profundezas daquele rio caudaloso de água salgada!
Em uma das investidas contra uma enguia gigantesca, uma vaga não menor que 15 metros golpeou nosso herói, arremessando-o contra o fundo do oceano. Vencendo as toneladas de massa d’água que o mantiveram submerso por longos minutos, Tarzan retornou à superfície e, finalmente, respirou.
Tio Paulo, que acompanhara o episódio completo, me viu andar pra fora da água com quilos de areia na sunga, um esfoladinho na testa e olhos apavorados, cheios de lágrimas prontas para transbordar. Sábio homem, ao invés de me tratar como um coitadinho, bateu palmas e me encorajou como se eu tivesse pegado um jacaré ao invés de ter levado um caldo:
– Isso aí, Dudu. Muito bem. Pegou um jacaré!
– F... f... foi? Peguei?
– Pegou, pegou sim!
– E foi de mão ou de faca?
Como assim, de mão ou de faca?! Como assim?
Criança é um bicho foda, vem com cada uma... Meu primo André, meu único primo que compartilha comigo o amor pelo tricolor gaúcho, quando tinha uns cinco anos talvez (eu já era um adolescente), brincava no gramado da casa alugada por tio Rico e sua esposa, tia Helena, em Torres – cidade litorânea ao norte de Porto Alegre, onde minha família veraneava –, e lá pelas tantas veio mostrar o que achara: um escaravelho negro (ops, afro-descendente) do tamanho da sua mão. Para sorte dele e minha tranquilidade, estava morto.
– Por que ele tá tão quietinho?
– Porque ele tá morto, Dé.
– E por que ele morreu?
– Hum... porque, assim como as pessoas, todos os bichinhos nascem, crescem e um dia morrem.
– Ah... e por que ele nasceu?
– Tia Heleeeeeeeeeeeeeeeeena. Venha aqui conversar com seu filho, por favor!
Ana, a filha de Pedrão e Júlia, duas das pessoas mais inteligentes da galáxia, não foge à regra e faz perguntas desconcertantes e comentários surpreendentes. No auge dos seu sete anos, tem um ar blasé encantador. Além do mais, pela questão genética, acredito eu, é acima da média. Bem acima da média.
– Mãe, como é o nome daquele buraquinho que a gente tem na bunda?
– Qual?
– Aquele que sai o cocô.
– Ânus.
– Ah, tá.
– Por quê, filha?
– Nada não. É que lá na escola a gente chama de cu.
Crônica revisada por Paula Berbert


31 de janeiro de 2011 14:33
Adorei o texto, acho que como te conheci adolescente, nunca te imaginei criança, foi engraçado imaginar vc de tarzan com uns 16 anos e cabelos a altura dos ombros.
Valeu Du;
31 de janeiro de 2011 17:21
Genial, hum?
AMEI essa criança.
;)
1 de fevereiro de 2011 02:33
hahahahahahahhaha
Adorei o texto!
Beijocas
1 de fevereiro de 2011 11:28
Amei o texto, Lubis!! Muito bom! Tentei te seguir com meu blog, mas não achei como...
Bjos
2 de fevereiro de 2011 18:29
Ameidorei! Você tinha que ser dessas crianças, né? =D
beijos
2 de fevereiro de 2011 18:31
Ameidorei!!!
Você só podia ter sido assim... como eu bem imaginava! =D
Beijos, amigo!
7 de fevereiro de 2011 04:30
Sensacional!
Tudo perfeitamente descrito!Fiquei em dúvida se tinha vivido isso com voce...beijosssss
7 de fevereiro de 2011 04:31
Sensacional!! Adoreii!
Tudo perfeitamente descrito que fiquei na dúvida se tinha vivido tudo isso com voce!
beijooosss
7 de fevereiro de 2011 04:33
Sensacional!
Tudo perfeitamente descrito que fiquei em dúvida se tinha vivido tudo isso com voce!
Adorei! beijoss
7 de fevereiro de 2011 04:42
Sensacional!
Tudo perfeitamente descrito!
beijos
10 de março de 2011 17:42
Ai, ai, já estou preparando meu repertório de respostas complicadas para perguntas desconcertantes de um certo perguntador de 3 anos de idade, que provavelmente terá uma percepção aguçada da realidade, tal qual a Ana.