MANGABA

Cris é a amiga que mais amo na vida. Se há alguém para quem conto absolutamente tudo sem receio de ser julgado é ela. Nos conhecemos na Escola Teresa de Lisieux em 1991 e, de lá pra cá, de uma maneira ou outra, forjamos a mais sólida amizade de que tenho conhecimento.

Cris é família. Estudamos juntos no colegial, chegando a ser representante de classe e vice três anos consecutivos. Fiz musicoterapia na Universidade Católica de Salvador e ela, na mesma instituição, letras. Voltamos a nos aproximar quando, em momentos distintos, passamos no vestibular para letras na Universidade Federal da Bahia. Daí em diante nossas histórias se confundem...

Pegamos algumas matérias conjuntamente, eu a apresentei para o seu, então, futuro marido, Michal, e trabalhamos juntos na Cultura Inglesa. Mudei para Alemanha em 2002, ela, logo em seguida. Moramos no mesmo prédio na Neustadtcontrescarpe 26, fomos colegas num curso de alemão vagabundo subsidiado pela igreja católica, fui padrinho dela quando contraiu matrimônio e ela, minha madrinha (vale ressaltar que dei mais sorte aos meus afilhados do que ela). Hoje, apesar do Atlântico nos separando, os raros encontros são somente uma conversa retomada sem melindres, titubeios, meias palavras ou constrangimentos.

Cris conseguiu, batalhando muito, ser admitida para ensinar o idioma da Rainha Elisabeth na Volkshochschule, uma respeitada escola de idiomas naquele iceberg chamado Germânia. A vida na terra de Michael Schumacher segue uma lógica muito peculiar. Tudo, absolutamente tudo, é feito de acordo com as tradições locais que, sem sombra de dúvida, são as melhores do planeta. Afinal de contas, se vêm funcionando há anos, décadas, séculos, eras, para que mudar?

Qualquer estudante de metodologia de ensino de língua estrangeira sabe da importância de testes de nivelamento para viabilizar o ensino comunicativo da língua em questão. Pois bem, são tão importantes que as grandes editoras, ao lançarem uma nova série de livros didáticos, no geral, desenvolvem um teste de nivelamento de acordo com a proposta do livro. Ou seja, o que não falta por aí é teste de nivelamento!

Na escola supracitada, os novos alunos passavam por uma entrevista em alemão mesmo, com perguntas do tipo: você já estudou inglês?, há quanto tempo?, onde?, gosta do idioma?. E, baseado nisso, o professor tinha que executar o milagre de indicar o nível apropriado para o futuro aprendiz. O resultado era, obviamente, desastroso.

Com anos de experiência e estudo em aquisição de língua estrangeira e metodologia de ensino, Cris foi conversar com o coordenador para sugerir o uso de um teste de nivelamento que, de fato, PELAMORDEDEUS, nivelasse. Após ouvir a argumentação de minha amiga, Hans retrucou:
– Eu não acredito em testes de nivelamento.

Como assim, Hans?! Como assim?! Puta que pariu! Como não acredita em teste de nivelamento? Estamos falando de Deus ou do Capeta pra se acreditar ou não? Discorde, meu velho. Desenvolva uma teoria que justifique uma sala com alunos em diferentes estágios de desenvolvimento da competência linguística estudando conjuntamente e ponha em prática pra ver se funciona melhor do que turmas que passaram por testes de nivelamento. Mas não misture alhos com bugalhos nem convicções objetivas com fé.

Fé é como amor: imponderável. Não há porquês para nenhum dos dois. Ama-se ou não, tem-se fé ou não, simples assim. Algumas pessoas não conseguem conceber o fato de outras não terem fé ou, simplesmente, não acreditarem numa força superior criadora de tudo que nos rodeia.

Esta incapacidade é arrogante demais, pois desconsidera a diversidade de conduta. Para minha sorte, sou rodeado por pessoas com fé suficiente para me emprestar um pouquinho. Há uma funcionária de um dos meus trabalhos (professor de inglês que ensina em somente um lugar o faz por diletantismo ou por ter, de alguma outra forma, recheado a conta bancária) que jurava rezar por minha alma perdida, toda semana.

Diz-se que em Salvador há 365 igrejas, uma para cada dia do ano – afora anos bissextos. Se levarmos em conta templos evangélicos e outras seitas cristãs, garanto que se você passar o dia todo, todos os dias, visitando várias, não terá dado conta de todas as possibilidades ao final das quatro estações.

Fé pode ser divertida, se vista com o devido distanciamento. Os devotos do Senhor do Bonfim amarram umas fitinhas coloridas, chamadas de Fitinhas do Senhor do Bonfim, ao redor do pulso. Para cada nó, faz-se um pedido e, quando a fitinha partir naturalmente – não vale cortar nem forçar a barra pra adiantar o processo –, os pedidos tornar-se-ão reais.

Antigamente, os vendedores de fitinhas se concentravam na Colina Sagrada, onde fica a Igreja do Senhor do Bonfim. Agora, devido à expansão do turismo soteropolitano, creio eu, eles estão aqui, lá e acolá.

Minha amiga Catarina, bacharel em cinema por formação e fashionista por paixão, dona da confecção Essa Menina, resolveu, num dia de dezembro, tomar sorvete na tradicionalíssima A Cubana, na Praça da Sé, bem na entrada do Elevador Lacerda, para dar uma aliviada naquele calor infernal, além de, obviamente, aproveitar a vista privilegiada da Baía de Todos os Santos.

Estacionou seu Ford Ka vermelho-coágulo na Rua Chile, atravessou a Rua do Tira-Chapéu e, lentamente para o calor não pegá-la, procedeu para a sorveteria. Há dois passos e meio de alcançar seu objetivo, foi abordada por uma menina de mais ou menos 17 anos, com uma fitinha cor de abóbora para ela: “Venha, freguesa. Essa é uma lembrancinha da boa terra. Não precisa pagar”.

Conhecedora da estratégia amplamente difundida entre vendedores da sagrada fitinha, Cat se preparava para recusar educadamente quando um rapaz, nos seus 20 anos, brotou dos paralelepípedos e começou amarrar uma fitinha verde limão no pulso da filha de D. Nádia. A vendedora, p. da vida, deu pra ruim! Acenando para um policial militar que derretia dentro do uniforme, gritou:

– Ô, Seu Praça, ô, Seu Praça! Ó paí, ó, atravessando a fitinha dos otro. Chega machucou a menina, num foi não, Ninha?

Seu Praça se aproximou, com a delicadeza típica da PM baiana, deu um berro pro cara se afastar e foi prontamente obedecido. Catarina comprou cinco dúzias de fitinhas em cores sortidas para usar na coleção primavera-verão na mão na menina e seguiu, finalmente, para A Cubana.

Foi direto ao caixa, pediu um sorvete de duas bolas no copo e andou até o balcão onde, do lado oposto, encostado na parede, se encontrava o atendente. Esperou o rapaz vir atendê-la, pois era a única cliente, mas ele não deu o menor ibope a ela. Então, mostrando a ficha, Cat acenou com seu braço direito, o da tatuagem, como se dissesse: “cê não tá vendo que tô aqui, pô?!”

Arrastando o chinelo, olhos semicerrados e má vontade estampada na cara, Átila, como estava bordado no uniforme, veio até ela, tomou a ficha em sua mão e disse:

– Quer de quê?
– Duas bolas de mangaba.
Abriu o freezer e...
– A senhora não quer outro, não?
– Não tem de mangaba?
– Ter, tem. Mas é que tá lá embaixão!

Esta crônica foi revisada por Paula Berbert (MARCATEXTO)

13 Response to "MANGABA"

  1. duda lima Says:

    lembrei dessa estória/história do sorvete quando Ana Maria Braga esteve na Bahia e foi tomar sorvete na Cubana, hehehe!

  2. Paula Says:

    Aproveitando que revisei o texto, reviso também o rodapé de crédito, né? "MARCATEXO", Zão?
    Rsrsrs

  3. Jessy Says:

    heheheehe
    "A senhora não quer outro, não?" Foi ótimo!! kkkk aff!
    Adorei o texto!
    Bjks

  4. Breno Marques Says:

    e como ficaram os testes de nivelameento ? :)

  5. Prix Says:

    Rodei tantos blogs de ELT e acabei caindo aqui... Muito aleatório!!!

    Tava pensando em Cris e vim parar bem nesse post... Eu, hein?! Vixi!!!

    Saudades de vocês... Da terrinha... Desse jeito arrastaaaaado e tão gostoso de falar (ou escrever... ou pensar...)...

    Muito legal...!!! Ajudou a 'desanuviar os pensamentos'!

    Deixa eu voltar pro meu batente...
    Falando em batente... Diletantismo, pô?! Não! Maridinho fofinho! Hihihi!!!

    Bjs,
    Piu. =)

  6. Paula Says:

    Sexta-feira, eu chegando ao Pelourinho, me vem uma figura querer amarrar fitinha no meu braço.

    Eu balançando a cabeça em sinal de "não" e um cara próximo, outro portador de fitinhas ambulantes, deu bronca:

    - Ô, véi! Não vê que todo dia a essa hora essa menina passa aqui? Ela é local!

    Me sentiiiiiiiii!

  7. Cris Says:

    Meu amigo irmao!!! Li o texto antes de vc publicar e fiquei toda emocionada. Ao ler aqui em Bremen, fui às lágrimas mesmo. Você é meu irmao querido, que infelizmente nao pode mais me dar café e waffles todo fim de tarde:-(. O texto tá massa. Pude imaginar a cena dos vendedores de fitinha e da sorveteria como se eu tivesse estado lá. Adoro seu blog.

    Só aproveitando pra responder a pergunta de Breno Marques aí em cima: Os testes de nivelamento ficaram na mesma, ou seja: inexistentes. Continuamos nivelando através de perguntas irrelevantes e o resultado em sala de aula é tragicômico. Como o coordenador nao acredita nisso, nao há muito o que fazer. Afinal de contas, fé nao se discute...

  8. Gêneros e Manifestos Says:

    Velho Lubi, muito bom

  9. Gêneros e Manifestos Says:

    Muito bom

  10. Catarina Ribeiro Says:

    Tomei um sorvete na Cubana sábado e lembrei disso, rsrs. Beijocas!

  11. Daniel castelani Says:

    Adorei o texto, me lembrou a história de Max que pediu um suco de laranja sem açucar, e quando chegou, 1/3 do copo era açucar e o resto suco, ai Max indiguinadamente paulistano disse: Pô mano, eu te disse que era sem açucar...
    Ao que o rapaz responde: Mexe não que não pega o gosto...

  12. lubisco Says:

    esta história q Max contou é mais uma daquelas lendas urbanas...já ouvi esta mesma história de diversas fontes, inclusive eternizada numa crônica de José Augusto Berbert. Mas, não importa a fonte, é sensacional. Feliz q vc leia meu blog.

  13. Breno Marques Says:

    não desmascaare a diversão alheia !

    :)