Salvador talvez seja o único centro urbano do mundo em que o Rock é considerado produção cultural alternativa. Mesmo que não seja, é lamentável ter o gênero que revolucionou a história da música ocidental popular contemporânea relegado a segundo plano pela grande mídia e indústria do entretenimento na terceira maior cidade do país.A capital do carnaval de rua que durante sete dias por ano estremece ao som dos tambores, das vozes dos puxadores de trio e com a invasão de turistas ávidos por folia e luxúria não consegue, há mais de duas décadas, democratizar seus espaços.
Não são necessários os dedos de uma das mãos para contar os programas de rádios soteropolitanas que tocam música independente local. Raras são as casas de espetáculos bem equipadas e que tratam respeitosamente os artistas. As emissoras de TV, vez por outra, oferecem pauta como esmola, lidam com artistas consolidados como se fossem aves exóticas e demonstram, salvo a TVE, total desconhecimento do assunto.
Jamais esquecerei quando Os Irmãos da Bailarina foram ao Bahia Meio-Dia, jornal da afiliada à Rede Globo, divulgar o lançamento de seu primeiro álbum. A banda tem um som peculiar com guitarras distorcidas, acordes dissonantes, com a voz grave de Téo - ora berrando ora suave e melancólica - além das letras cheias de poesia e sofisticação. Georgina Maynart, apresentadora, tão perdida quanto um cachorro que caiu de um caminhão de mudança, me veio com essa:
- É impossível falar de Rock sem falar de Raul Seixas. Vocês são influenciados por ele também, né?
Não faz parte do trabalho do jornalista se informar sobre o que vai falar? Se ela é apenas a apresentadora, quem é o editor? Quem formula as perguntas? Algum deles ouviu o CD? Aposto meu polegar opositor direito que não.
A despeito da considerável produção musical não ligada à industria momesca, são poucos os que se aventuram a investir em artistas com trabalhos autorais que não seguem a fórmula das estrelas da Axé Music. É importante, contudo, deixar claro que não quero reeditar aquela tensão antagônica típica dos anos 90 entre Axé e Rock. Está morta... para alguns, pelo menos.
Nos idos da última década do século XX, com a expansão da política de desenvolvimento monocultural do estado pelo governo Carlista, negar música de carnaval era uma necessidade de sobrevivência. Quem gostava de Rock odiava Axé e estava certo da inferioridade do segundo: era sub-cultura, arte menor, coisa de brau. Shows de rock pareciam clube do Bolinha do inferno: só meninos vestindo preto e com cara de mau.
O tempo passou, as pessoas amadureceram... algumas, pelo menos.
A patrulha do rock continua sempre a postos para denunciar impurezas que manchem o manto sagrado dos órfãos de Raul Seixas. Parecem ter esquecido, entretanto, que justamente Raulzito foi um dos pioneiros a meter o pé na jaca e se afundar no lamaçal do brega, por exemplo. Mais que isso, chegou a gravar um bolero rasgado – Sessão das Dez - daqueles bem dramáticos capazes de fazer Odair José, Waldic Soriano e Amado Batista invejarem.
Alguns dos nossos dinossauros estavam trocando o pneu furado do Simca Chambord e não perceberam os ventos da mudança soprando. Enquanto esperneavam contra os traidores do rock, diversos artistas seguiram pelas searas da Semana de 22 - já revivida pelos tropicalistas - e se permitiram influenciar por tudo aquilo que forjou suas histórias ampliando, no final das contas, os horizontes e comunicando com mais pessoas ao mesmo tempo.
Excelentes álbuns foram gerados sob esta égide. Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta lançaram Frascos, Comprimidos, Compressas. Disco com as duas pernas afundadas no samba, o tronco açoitado pelo Jazz e a cabeça sendo golpeada pelo Rock. O Chachachá, dos retrofoguetes, traz como destaque a faixa intitulada Maldito Mambo, com arranjos de sopro assinado por Lutieres Leite e participação da Orkestra Rumpilezz. Dois em Um, duo de Luizão Pereira e Fernanda Monteiro, construiu uma colcha de retalhos sonora com guitarras, sintetizadores, cello e a voz hipnotizante de Fernanda. Roberta Simões, na sua página no myspace, lista lado a lado rock e bossa nova. Sem contar o novo álbum do Cascadura que, segundo uma breve leitura no blog da banda, dialogará com as raízes afro-baianas, como já apontava em O Senhor Das Moscas, faixa do Bogary, que trata das qualidades de Omulu (Atotô Babá).
Há mais rock na atitude deles do que na história de muitos que se proclamam salvadores do rock ‘n’ roll.
Até a Guitarra Baiana, primeira grande estrela dos trios elétricos, já quase extinta se não fosse o esforço hercúleo dos irmãos Armando e Aroldo Macedo, ganhou sobrevida graças a tradicionais guitarristas do rock baiano, como Morotó Slim (Retrofoguetes) e Robertinho Barreto (Lampirônicos) que a tem estudado e incluído em seus shows não como coadjuvantes, além de Julio Caldas com seu projeto Choro Rock.
Talvez esta seja a grande ironia de todas: roqueiros ressuscitando um dos ícones do carnaval baiano. Na realidade, provavelmente, o maior gesto de maturidade seja justamente reverenciar os grandes, independente deste ou daquele rótulo e não se fechar numa gavetinha em cima da prateleira. A patrulha fenece num processo autofágico dentro de listas de discussão irrelevantes que agonizam com os próprios ecos. Enquanto latem, a caravana passa.
E o rock? Bem, continua rolando sem acumular limo.


24 de agosto de 2010 08:49
Não faz muito tempo, um mês no máximo, estava conversando com Rex (Retrofoguetes) sobre as andanças da banda pelo país e ele me contou que uma vez encontrou Marrom (aquele cara que aparece todo carnaval para falar das estrelas da axé) no aeroporto de São Paulo, voltando após uma dessas apresentações, e o cara saiu com a pérola: "que massa. agora vocês conseguiram sair de Salvador." O sujeito nunca se tocou que a Retrofogetes é considerada entre as melhores bandas do Brasil e que há anos viaja para tocar em montes de festivais que só não são notícia na nossa bela capital baiana.
24 de agosto de 2010 17:05
Ótimo texto, adorei reflexão!
Espero que, assim como muitos artistas vem se reciclando e agregando novas influências e sonoridades aos seus trabalhos (sem perder a "atitude rock"), eu possa reler esse texto daqui há alguns anos e constatar que a realidade mídia x música independente na Bahia esteja diferente...e pra melhor!
Otimista demais? hehehe
Beijos!
24 de agosto de 2010 17:22
sempre pertinente!
24 de agosto de 2010 19:32
Ótimo texto...gostei da reflexão.
Assim como vejo muitos artistas se reciclando e mesclando influências e sonoridades(sem perder a atitude rock), espero reler esse texto daqui há algum tempo e constatar que a realidade da relação entre mídia e música independente na Bahia é outra...e melhor!
Otimista demais? hehehe
Beijos!
25 de agosto de 2010 07:36
No dia d'Os Irmãos da Bailarina no Bahia Meio Dia, quem estava em estúdio apresentando foi Georgina Maynart, não Patrícia.
25 de agosto de 2010 10:04
Aqui,vc apontou duas das mais agudas provocações que já sofri: "Frascos...", dos RJLB e "Chá Chá Chá", dos Retrofoguetes.
São obras bonitas e de um valor tremendo.
Estou perseguindo isso tb.
Parabéns pelo texto.
25 de agosto de 2010 10:04
Aqui,vc apontou duas das mais agudas provocações que já sofri: "Frascos...", dos RJLB e "Chá Chá Chá", dos Retrofoguetes.
São obras bonitas e de um valor tremendo.
Estou perseguindo isso tb.
Parabéns pelo texto.
25 de agosto de 2010 18:48
A Semana de 22 tem valor grandioso para o reconhecimento da nossa própria identidade. Apropriadíssima a tela de Tarsila para ilustrar o seu texto: somente no início do século XX, os escritores e artistas brasileiros começaram a fazer arte genuinamente brasileira. A "música baiana", 50 anos depois, virou sinônimo de "axés" e "rebolations", estilos que não refletem a nossa identidade musical, atendendo muito mais aos anseios comerciais/turísticos que artísticos. Ao ouvir bandas como Retrofoguetes, Brincando de Deus, Cascadura e tantas outras de Salvador, respiramos aliviados: Ufa! Nós existimos! Podemos nos reconhecer dentro de nossa manifestação artística. O processo de respeitabilidade é lento, mas certo. O movimento musical de Salvador, que ainda pode ser considerado jovem (15, 20 anos?), está mais maduro e mais tranquilo, assegurando a cada um de nós uma serenidade de que, sim!, nós sabemos fazer música! Aliás, música não... ROCK!!!
E uma banana pra quem não sabe o que é Rock!
Adorei o texto.
Beijo com carinho gigante,
Dea.