
Quando eu era 6ª série ginasial na já finada Escola Teresa de Lisieux, tinha um colega chamado Leandro. Pele alva, cabelo castanho escuro com fios bem grossos, voz quase inaudível – pela timidez – e 1,80m. Putaquepariu, mermão! Como assim, 1,80m na 6ª série?!
A característica mais marcante, entretanto, não era a longa distância entre o dedão do pé e o cocuruto, mas, sim, o amplo espaço ocupado pelo composto de ossos que, com as meninges e o líquido cefalorraquidiano, protege o encéfalo. Havia rumores, entre nós, amados coleguinhas, que Leandro media 1,20m até o pescoço... o resto era cabeça.
Na moral, guri é foda. Não perdoa. Além de apelidá-lo, prontamente, de Cabeça, toda vez – isso significa não menos que 100% de ocorrência – que Cabeça chegava tarde na sala e já estávamos sentados, cantávamos, em uníssono, a nossa própria versão daquele tradicional bolero:
– (Ca) besa-me, (Ca) besa-me muuuuuuuuuuuucho...
Ok, ok, concordo que fomos um pouco cruéis, mas há de se considerar uma coisa em nossa defesa: toda classe já teve um Cabeça, ora bolas!
Para a minha geração, pelo menos, havia um apelido muito comum que, analisando agora, refletia uma das facetas racistas da nossa sociedade: todo menino preto (afrodescendente, para os politicamente corretos que não assistiram aos Trapalhões) que jogava bem futebol era Pelezinho. Recordo-me, sem esforço algum, de três.
Apelidos no ambiente escolar, em grande proporção, são atrozes mesmo. A patrulha demagógica, ops, digo, pedagógica, logo vocifera: é bullying. Afe, agora tudo é bullying. Minha paciência para esse comportamento patrulhesco, numa escala de 0 a 10, é de um negativo.
Conheço inúmeros colegas que sobreviveram aos apelidos e hoje são profissionais bem sucedidos, pais e mães de família, artistas etc. A título de exemplo, só em classes das quais fui aluno, o garoto gordinho era Buda; a menina estrábica, Zói; o com arcada dentária superior proeminente, Coelhinho; o com pálpebras pesadas, Soneca; o com um ritmo peculiar, Sequela; o que, uma única vez, foi pra aula com conjuntivite, Maconha; a que falava muito, Motorzinho; e a menor de todas, Chaveirinho. Sem contar os registros de outras escolas: Oreba, Cinturinha de Kibe, Manteigão, Matagal, Lombrigão, Cara de Kombi e Boca de Sacola.
Hoje em dia, de volta à sala de aula, como professor, percebo que a tradição de apelidar perdura. Obviamente, identifico diferenças relacionadas ao referencial desta geração. Na mesma turma, leciono para Smigol e Shrek. Tenho que reconhecer que o garoto apelidado de Shrek se assemelha demais com um ogro. Logo, não coincidentemente, parece com meu amigo René.
René nasceu em Maragogipe, cidadezinha no baixo recôncavo baiano, próxima de Santo Amaro, que, por sua vez, tornou-se famosa pelos seus notórios filhos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda pirralho, mudou-se para a capital e cresceu na Pituba, bairro de classe média, que, na nossa juventude, era seguro e tranquilo, com ruazinhas quase sem movimento de carros que nos possibilitavam, entre outras coisas, bater o baba (partida de futebol, para os leitores não conhecedores do vocabulário baianês) no meio da rua. Os chinelos viravam traves, o que causava intermináveis discussões sobre a legitimidade do gol; o asfalto, o gramado da Fonte Nova; e a sola dos pés, chuteiras Topper.
Ainda nos primeiros anos da tenra adolescência, René incursionou como poucos na lama do Metal. Não satisfeito em ensurdecer os vizinhos com as canções do Slayer, Antrax, Nuclear Assault, Napalm Death e Megadeath, comprou com sua própria mesada diversas fitas K7, BASF Chromo 90 minutos, para difundir entre os mais jovens o sagrado poder da distorção. René foi, para toda uma geração de roqueiros das ruas Bahia, Território Rio Branco, Mato Grosso e Território do Amapá, uma espécie de guru.
Os sobreviventes desenvolveram um gosto musical que, com os anos, assim como o do próprio Ogro-Mor, ampliou-se, incorporando novos elementos como Cat Stevens, Bob Dylan, Wilco, The Beatles, Neil Young, Leonard Cohen, Sá & Guarabira, Zé Rodrix, Clube da Esquina e, obviamente, Sidney Magal.
Conheci René quando eu namorava Adriana, estudante de Direito da UFBA. Ela tinha diversas amigas descoladas da época de escola que curtiam música e sempre se encontravam pra uma rodinha de violão. Jovens, humpf! Salvo engano, bem provável pelos lapsos de memória que a idade tem me proporcionado, René tava comendo alguma das meninas ou querendo comer alguma delas. O fato é que, naquela noite, quando participei de um destes encontros pela primeira vez, me impressionei com o repertório e a voz do cara. Ele tinha aquela voz fruto de um grande investimento em nicotina e cachaça vagabunda.
Chegamos a dividir o palco. Foram cinco ensaios e somente uma apresentação da nossa prematuramente extinta Seu Roque... mas memorável – para mim, pelo menos, que realizei meu sonho de adolescência: a minha própria banda. Vale ressaltar que isso aconteceu pouco antes de eu completar 37 anos.
Duas semanas depois da apresentação, encontrei, na Livraria Cultura, uma ex-aluna com quem ainda mantenho contato virtual, e ela, pra minha surpresa, afirmou que assistira ao show.
– Foi mesmo? E aí, gostou?
– Sim, sim... a banda é bacana.
– Hum... Ô, Raiza, pode ser sincera, babes. Não tem problema se não gostou.
– Não, não, eu até gostei da banda, mas é que o vocalista é espetacular.
– Porra, ele tá cantando pra caralho, mesmo.
– Mas não tô falando disso não. O cara parece um caminhoneiro.
Não poderia haver uma descrição melhor. Quando contei para ele, gargalhou e sentiu-se orgulhoso da comparação. Afinal, este deve ser justamente o arquétipo idealizado de quem segue os preceitos dos quatro líderes espirituais: Chuck Norris, Steven Seagal, Stalone Cobra e Conan, O Bárbaro.
Há poucos dias, conversando, coincidentemente, num bar justamente na supracitada Rua Bahia, onde morou, chegamos à conclusão de que não vivemos a adolescência, mas sobrevivemos a ela.
René já tinha se mudado para o centro da cidade, nos Barris, onde fica a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, quando aprofundou sua vivência em expansão da mente através de substâncias, predominantemente naturais, que agem diretamente no sistema nervoso central, abrindo as portas da percepção.
Numa noite qualquer, foi convidado por uma amiga que morava ali na vizinhança pra tocar um violão e comer um delicioso bolo de chocolate com maconha. Em 0,5 segundo, chegou ao apartamento da amiga, onde mais três estudantes de ciências sociais ou qualquer coisa do gênero se encontravam esparramadas nuns almofadões com forro indiano, completamente chapadas.
A dona da casa e doceira disse que aquilo era porque, ao preparar o quitute, mantivera todas as quantidades dos ingredientes, exceto a boa e velha Cannabis, cuja porção fora triplicada.
Aliada à fome perene de meu amigo, a excitação típica de uma criança diante de um algodão doce gigante o fez se lambuzar na guloseima psicotrópica. Em questão de minutos, metade da travessa transformou-se em bolo alimentar e, do estômago, seguiu direto para a corrente sanguínea.
Quase nada foi conversado durante as horas seguintes, e as tentativas não passaram de blá blá blá nonsense que desencadeava crises intermináveis de gargalhadas. Tudo, absolutamente tudinho da silva, fazia sentido e era hilário.
Após recompor minimamente seu senso de equilíbrio e coordenação motora, voltou pra casa, caiu na cama e hibernou. Na manhã seguinte, despertou com o chamado da natureza o impelindo para, como o próprio diria, dar uma barreada.
Levantou, grunhiu algo parecido com um bom dia para a mãe que tomava café da manhã, pegou a página policial do jornal e se trancou no banheiro, pois havia um serviço a ser executado – afinal, metade de um bolo não é metade de uma torrada.
No meio do processo, Bruno, seu irmão dois anos mais novo, atrasado pra escola, bateu na porta pedindo para escovar os dentes. Diante da negativa, pediu que, pelo menos, abrisse uma fresta da porta e desse a pasta e a escova. Assim foi feito... e, com o portal do inferno entreaberto, os vapores, então comprimidos no recinto azulejado de 2m x 1,30m, se expandiram, invadindo as narinas do apressado estudante.
– Afe, Maria! Que porra é essa?!
– Oxe, que foi, man?
– Cê ta fumando maconha no banheiro, é?
NOTA: Quando me mudei para a Alemanha, morei um mês em Frankfurt. Por uma situação adversa, resolvi ir para Bremen, onde René provisoriamente morava com nosso amigo Michal, hoje marido de minha amiga-irmã Cris. Eu estava com quatro quilos a menos do meu peso ideal, proveniente de tristeza. Ao chegar, em pleno inverno, com temperatura negativa e perto da meia-noite, à estação ferroviária da cidade onde moraria pelo próximo ano e meio, a primeira pessoa que avistei foi René. Ele apressou o passo em minha direção com sorriso aberto e, vendo meus olhos mareados, me abraçou forte e disse: “Tá tudo bem. Agora você está com seus irmãos”.
Este texto foi revisado por Paula Berbert