E AS AMIGAS?

Para um educador, comecei a ler Paulo Freire tardiamente. Sim, me incluo, sem modéstia alguma, no rol dos educadores e não dos professores. Educar é mais do que ensinar ou meramente treinar, principalmente em tempos de supervalorização e, por isso mesmo, descrédito do ingresso ao ensino superior.

O mais sábio de todos os educadores na história deste país me fez compreender aquilo que me mantem firme aos meus princípios e, dentro da minha sala de aula, fazendo a diferença, provocando, instigando o pensamento crítico, estimulando o questionamento - inclusive do que digo - e reforçando as potencialidades quase inertes de uma geração: a raiva é fundamental, desde que não se reverta em reação raivosa, mas, sim, em energia criativa.

Minha primeira leitura foi um soco no estômago: A Pedagogia do Oprimido. Ninguém, com o mínimo de compromisso social, passa por esta experiência – a de desvelar o romantismo da educação - igual. A partir daí, devorei tudo que apareceu pelas prateleiras de Salvador.

Certa feita, chegando em casa com mais uma fornada, direto da Saraiva, minha mãe, impressionada com o quantidade de títulos do mesmo autor, me saiu com essa:

- Conheci Paulo Freire.
- Mentira! Como assim, D. Nídia?
- É, almocei com ele no comecinho dos anos 1980. Acho que foi em 82, quando ainda era diretora do Sistema de Bibliotecas do Estado e fui para um congresso em João Pessoa, onde ele era um palestrante.
- Mas... assim... almoção coletivo e você só tava na mesma mesa, né?
- Não, não. Uma das organizadoras do evento me chamou pra almoçar com eles e mais um punhado de gente. Sentei no lado dele e conversamos por várias horas. Eu ainda era muito jovem e, apesar de estar completamente encantada com tanta sabedoria e humildade, não tinha a dimensão exata do que estava acontecendo.
- ...
- E ainda se despediu me dando um beijo na testa.

Escataploft! Caí da cadeira.

Dando seguimento ao meu mergulho nos Mares de Freire, dei início à leitura de A Importância do Ato de Ler. Bem no comecinho do livro, me deparei com uma nota de rodapé que dizia: “palestra apresentada no XI Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação em João Pessoa em janeiro de 1982.”.
Escataploft²! Putaquepariu, mermão! Como assim!? Tava lendo a tal palestra do almoço. Porra, assim não vale. É muita informação. Muita informação. Muuuuuuita informação, caralho!

Outra leitura que invariavelmente me surpreende, mesmo sendo repetida, é Mário Quintana. Este gaúcho de Alegrete, para mim, é sinônimo de poesia. O velho Quintana, que já nasceu com 90 anos, enxergava poesia onde todos viam cotidiano. Quando ainda me aventurava escrevendo poemas e tinha pretensão de publicar um livro, já havia escolhido meu verso de abertura: O que gostaria de dizer, Mário Quintana diria melhor...

O livro jamais saiu, mas a minha leitura do Velho, manteve-se firme e apaixonada. Comecei com uma compilação presenteada à minha mãe, por meu pai, em 1968. Putaquepariu, mermão! Em 1968 o cara já tinha uma compilação! Bem, a partir daí comprei o que encontrei... e meus amigos mais próximos me ajudaram a aumentar minha coleção.

Em 1994 ou 1995, não lembro bem, após um término de namoro traumático, eu, então com 20 anos, conheci uma jovem atriz de 16, chamada Manhã. Meu encantamento foi imediato. Lutei pra conquistá-la, mas, devido à minha conturbação emocional, a história acabou, como não poderia deixa de ser, em sofrimento. Porém, antes do fim - quando ainda sorríamos do nada - no dia do meu aniversário, ganhei mais um livro de Quintana com, talvez, a mais bela das dedicatórias já feitas.

Devorei as poesias sem pressa. Uma a uma, saboreando cada pausa e vírgula; as imagens, sabores, perfumes, cores, texturas e, principalmente, cada palavra não dita. Li e reli; dormi e acordei; me perdi, me reencontrei e me perdi novamente...
Uma das minhas prediletas é bem simplória. Na realidade é quase uma minicrônica poetizada. Fala de um porteiro com idade já avançada que acreditava que ratos, ao envelhecerem, viravam morcegos. “Ora bolas, morcegos”, pensei enquanto lia. Foi quando o velho Mário concluiu do jeito mais Quintana possível: “Jamais tire um brinquedo de uma criança, tenha ela oito ou 80 anos.”.

O melhor brinquedo, a despeito da idade, é a imaginação. Na infância é, não somente um brinquedo, mas o maior aliado. Lembro que tinha amigos imaginários que moravam da casa de minha Vó-e-Madrinha, como ela própria gostava de ressaltar. A primeira coisa ao chegar à casa dela, no apartamento 101 do Ed. Cerejeira, na rua Guillard Muniz, era correr para o quarto utilizado à guisa de sala de televisão e afastar o sofá para conversar com eles. Somente então iria brincar com os amigos da rua.

À medida que nos afastamos da infância, deixamos, no geral, a imaginação pra trás também e, lamentavelmente, aceitamos como um fato normal e inexorável da vida. Contudo, acredito que esta força imaginativa não se rende facilmente e, de uma maneira ou outra, se esgueira pelas brechas da rotina adulta, seja através das mais diversas expressões artísticas ou, simplesmente, numa conversa entre amigos, exercitando a fantasia.

Já me peguei incontáveis vezes divagando sobre o que fazer caso ganhasse sozinho na Mega Sena acumulada. A primeira coisa seria fazer um American Express Platinum... isso mesmo, aquele sem limite. Aquele que, caso queira, pode-se entrar numa lojinha e sair com uma Ferrari 0 km. A outra prioridade seria viajar o mundo, sem pressa. Para isso, duas coisas são fundamentais: roupas e uma boa câmera fotográfica. Então, meu primeiro destino seria Milão, para onde iria sem bagagem alguma, somente para comprar na capital mundial da moda. Pronto, um problema já estaria resolvido. Agora, com minhas malas entupidas das melhores vestimentas que alguém pode imaginar, partiria para o Japão, compraria o mais moderno equipamento fotográfico disponível, com todas as lentes que sempre desejei. Aí, sim, daria início ao meu passeio ao redor do globo.

Certa feita, numa mesa de bar, acompanhado de um punhado amigos e amigas, Amarelo, também conhecido como Cândido Neto, me saiu com uma ótima, quando conversávamos sobre o mesmo tema. Disse que alugaria um transatlântico, contrataria Eric Clapton e o Aerosmith para fazerem diversos shows durante um cruzeiro por todos os mares. O detalhe é que convidaria somente os amigos. Uma das meninas da mesa, então, meio ofendida, o interpelou:

- Só os amigos? Porra, Amarelo. E suas amigas?
- Veja bem, as amigas eu contrataria na Suécia.

Este texto foi revisado por Nídia Lubisco

A HISTÓRIA DE UM PENSADOR.


Era vez um menino até inteligente.
Na adolescência, resolveu comer dicionários... hoje só caga palavras.

NATAL

Não tenho fé no divino.

Acredito que o Homem criou deus à sua imagem e semelhança, não o inverso. Justamente por isso, acredito no Ser Humano. Este poder de forjar uma fonte que tudo sabe, que tudo pode e está ao redor, pode ser transformado na capacidade de mudança que tanto nos é necessária.

Atribui-se a Jesus divindade e, portanto, infalibilidade. Por quê? Qual o mérito em não errar? Foi esta a lição perversa que teria nos deixado? Sinceramente, desacredito. Perfeição é para o deus que inventamos.

Jesus, o filho de Maria e José, foi capaz de fazer milhões escutarem, olharem ao redor, questionarem e fazerem a revolução. Ensinou que as diferenças devem ser aceitas, as coisas – tangíveis ou etéreas – compartilhadas, que o outro, mesmo quando errado, deve ser perdoado. Entretanto, perdoar não significa omitir-se. Afinal, não foi Jesus que, num momento de ira, expulsou os vendilhões do templo?
Ele enxergou seu lado sombrio, caiu em tentação, refletiu, refez-se, pôs-se de pé e seguiu adiante, amando a todos como a si próprio.

Andamos nos embrutecendo. Sucumbimos diante do ideal de acúmulo e exploração. Somos culturalmente programados para reter, manter e disputar. Deixamos para trás, em algum momento, lições básicas ensinadas por Jesus.

Há, contudo, a meu ver, possibilidades. Não criamos deus? Ora, pois, aprendamos com o filho da nossa cria: questionemos, amemos, perdoemos, sejamos mais humanos, pois ser mais humano é tornar-se mais divino...

Revisado por Nídia Lubisco

ÀS LÁGRIMAS

Este blog foi feito pra publicações exclusivamente minhas. Mas...

Para Lubi, meu irmão.

Lembro que quando eu era criança tudo o que mais queria nessa vida era ter um irmãozinho. Aliás, um irmãozinho, não. O que eu queria era um irmãozão. Nas minhas fantasias de criança, o irmão que me fazia falta nunca era um bebê chorão menor do que eu e sim um menino que seria sempre um pouquinho mais que eu: mais velho, mais sábio, mais popular, mais conhecido. Muito estranho isso, mas quando criança eu trocaria, sem hesitar, qualquer situação em que eu fosse o centro das atenções pela chance de poder dizer: “O quê? Você conhece fulaninho? Ele é meu irmão.” Eu desejava aquilo com tamanha intensidade que minha cabecinha avoada de criança nem se tocava do óbvio que era a impossibilidade daquele sonho. Eu já estava aqui no mundo, ter um irmão mais velho só poderia virar realidade em outra vida.


O tempo foi passando e com ele aquela fantasia foi dando lugar a outras.
Agora queria era passar no vestibular, conseguir juntar dinheiro pra fazer um intercâmbio, comprar um carro, arrumar um namorado legal, comprar uma casa, conseguir aquele emprego bala, ganhar na loto, ter uma ilha. À medida que a gente vai crescendo, nossos sonhos vão ficando mais materiais, mais práticos e comigo não foi diferente. Uns sonhos foram se realizando rápido, outros de forma mais trabalhosa e outros foram mudando ou terminaram sendo completamente substituidos. No geral, me considero uma pessoa de sorte por quase sempre conseguir alcançar minhas metas, meus objetivos.


Mas realizar sonhos leva tempo e dá trabalho. Por isso eu estudei muito, troquei de universidade, trabalhei aqui e acolá, trabalhei por merreca, fiz amigos, perdi amigos, fiz cursos, viajei, galinhei bastante - porque ninguém é de ferro -, me apaixonei, chorei, dei muita risada, caí, levantei, quis mandar tudo pra puta que pariu, virei zen, fiz yoga, perdi a paciência, a recuperei e, durante todo esse tempo (mais ou menos a partir do momento em que eu comecei a deixar de lado o desejo de ter um irmão mais velho para dar preferência a outras fantasias), uma pessoa esteve presente acompanhando tudo isso. Olhando pra trás, lembro exatamente do nosso primeiro contato: eu estava anotando alguma coisa num caderno, apoiado na minha mão, de pé, em frente à sala de aula, antes de o professor chegar. Ele estava encostado na parede, bem ao lado do papel que eu queria ler. Tentei ignorar sua presença, mas ele não é o tipo de pessoa que alguém consiga ou queira ignorar. Era um adolescente lindo, alto, com cabelos longos e brilhantes de dar inveja a qualquer menina, seus olhos eram super meigos, era muito, mas muito charmoso mesmo e como era cheiroso! Simpático como ele só, começou a brincar comigo, tentando me atrapalhar com minhas notas. Dei risada e senti meu coração se aquecer. Mal sabia eu que meu sonho de menina estava se realizando. Naquele exato instante, estava nascendo para mim meu irmão mais velho.


Desde então, Lubi, meu irmão esteve presente em minha vida em todos os momentos. Nas fases ruins ele me ouve, aconselha, oferece outra perspectiva da situação. Quando eu passo dos limites, meu irmão me dá umas chamadas pra real também. Coisas de irmão mais velho. Assim como todo bom irmãozão, ele sempre foi um grande modelo pra mim e é em grande parte responsável pela minha formação como ser humano. Sem ele, muitos de meus melhores momentos de vida nem teriam acontecido. Entre as tantas coisas que ele fez por mim, está o despertar do meu interesse por questões sociais e políticas, a ampliação do meu universo musical e ter me apresentado ao meu marido, o primeiro grande amor de minha vida. Faltaria espaço aqui pra contar quantas vezes ele aguentou minhas bebedeiras e me levou sem nem um arranhão sequer de volta pra casa.


Meu irmão e eu já tivemos momentos super próximos de quase sermos um só, ao ponto de algumas pessoas nos chamarem Cris&Lubi, e outros, mais distantes, de meses sem saber um do outro. Hoje em dia eu sei que aquela melancolia que insistia em me acompanhar apesar de eu estar bem, vinha do fato de estar distante de meu irmão. Porque naqueles momentos de distância não se passava um dia sem que eu pensasse nele. Lembrava dele em festas, quando via algo que eu sabia que ele ia gostar, queria fazer comentários que eu sabia que só ele iria entender. Como é comum entre irmãos, já brigamos também. Mas a gente sempre aprende com nossos conflitos e, ao final de cada briga, nosso elo se torna cada vez mais forte. Mas não gosto de brigar com meu irmão. Quando isso acontece, a dor é tão grande que parece até que briquei comigo mesma.


O meu maior pesadelo de mulher adulta é o medo de acordar um dia e me achar sozinha no mundo. Sem filhos, sem marido e sem ninguém com quem dar os últimos passos de minha vida. Pesadelo bizarro, eu sei, mas que recentemente parou de me atordoar, sabe por quê? Esta semana eu estava caindo e meu irmãozão mais uma vez me segurou. Dono de uma sabedoria incrível, mandou eu chorar direito e me disse todas as coisas que eu precisava ouvir. Cada palavra era uma carícia em minha alma. No final, ele completou: haja o que houver, seja quando e onde for, aconteça o que acontecer, pode me chamar que eu vou na mesma hora te socorrer, como você precisar. Senti novamente meu coração se aquecer. Olhei fundo nos seus olhos, que ainda carregam toda a doçura da adolescência, mas com um fator a mais que é a segurança e a maturidade do homem que ele se tornou. Acreditei completamente nas palavras dele. Tenho certeza de que nossa amizade e nosso elo de irmãos são eternos e de que eu nunca vou precisar passar por nada sozinha, se não quiser. Fui relembrada do porque a vida vale à pena e passei a noite agradecendo a papai do céu por me ter concedido o desejo impossível de criança de ter um irmão mais velho.


PSICOPATA

Como minha memória anda me traindo, resolvi contar essa história antes que caia no esquecimento.

Moro no mesmo endereço há 23 anos. Se bem que há uma lacuna referente à época que fui casado. Mas, com o divórcio, filho pródigo que sou, retornei ao lar.

Nilton, que exerce a função de coordenar os porteiros e funcionários responsáveis pela limpeza do prédio de 12 andares com quatro apartamentos de três quarto por piso, me conhece desde que me mudei pra cá ainda meninote. Nestes anos todos, desenvolvemos uma relação de afeto e confiança.

Os outros funcionários - Alan, O Perguntador; Firmino, O Tá-Tudo-beleza; Raimundo, O Filósofo; Chico, O Fênix e Timóteo, O Dialeto - são espetaculares e nos adoramos mutuamente. Um dos meus passatempos prediletos é, nas minhas horas vagas, descer e conversar com quem estiver na portaria no momento. Sempre aprendo algo com a sabedoria popular – aquela que não se aprende na escola – ou me divirto muito com as histórias da vizinhança, afinal, todo mundo tem seu lado Dona Fifi.

Bem verdade que muitas destas conversas são momentos de terapia para eles que me contam as agruras do serviço cotidiano. Sempre, sempre mesmo, solidarizo-me com toda a sinceridade que tenho. Talvez por isso, gostem tanto de mim ao ponto de, ao invés de me chamarem de Lubisco, usem Duda. E, deixo claro que, somente eles têm esta permissão.

Hoje, desci para fumar um cigarro e prosear um pouquinho. Chegando ao playground, encontrei Nilton na guarita enquanto Firmino e Alan, o mais jovem de todos, lavavam o piso do térreo. É um trabalho brutal, pois a área é enorme.

Vendo aquilo, lembrei-me, milagrosamente - devido a minha condição atual, já referida lá em cima – de uma cena que testemunhei há duas semanas: Nilton estava na portaria quando uma moradora louca, mãe de um garoto de uns 10 anos e já atormentado pelas insanidades maternas, chegou esbravejando, com sua grosseria peculiar, pois seu amado rebento só chegava em casa com “os pés pretos de sujeira”.

Nilton tentou argumentar, ponderadamente , que o pátio era varrido todos os dias e lavado uma vez por semana. Mas a louca, como é chamada por todos os condôminos que sabem da existência daquele ser desequilibrado, não se deu por satisfeita. Prometeu fazer uma reclamação formal ao síndico pedindo o desligamento de todos os empregados imediatamente, bateu a porta e andou, pisando fime seu sapato com estampa de oncinha, até o elevador.

A teoria unânime que corre à boca pequena – bem, não tão pequena assim – é que, a ela, falta uma boa trepada. Ok, concordo que seja uma teoria levemente machista, mas garanto que, neste caso específico, concordo plenamente.

Há poucos minutos, quando ainda estava lá em baixo divertindo três deles com algumas histórias engraçadas - modéstia à parte, sou bom nisso - relembramos o rompante da psicopata. Foi, então, que recebi uma de trabalho. A primeira relativa a um tipo de serviço ao qual não estou acostumado a prestar, visto que minha escolha profissional foi de ser pobre, digo, professor de inglês.

- Duda, você tem algum tempinho livre?
- Hum... não exatamente. Mas diga aí o que é pra ver se posso ajudar.
- Man, se puder vai ser bala!
- Massa.
- Tá a fim de ganhar uma grana extra?
- Oxe, claro! Na hora. Manda.
- Você cobraria quando pra dar uma madeirada na doida?
- Uma o quê?
- Madeirada, porra.
- Madeirada? Tá Louco, véi!?
- Não, man! Passar a pica.
- Ah! Um milhão... acho.

Este texto não foi revisado

PASSAGEIRA

Quando nasceu, não chovia nem fazia sol. Era um fim de tarde morno, com algumas nuvens acinzentadas, daquelas que só fazem o dia abafado e nostálgico.

Amigos e parentes a visitaram mesmo antes de ela ser retirada, via cesariana, do útero. Aguardaram ansiosamente na cafeteria do hospital - eram, ali, todos, de sangue ou de coração, tios e tias - até que a notícia no nascimento chegou: Julia nasceu.

Embora profundamente amada, seu primeiro choro foi de melancolia. A mesma melancolia que seria alimentada por toda sua vida.

Não estou dizendo que era infeliz, mas, na escola primária ainda, durante o intervalo, enquanto seus colegas brincavam de esconde-esconde, ela permanecia na sala, sozinha, entre seus livros, diário e alguns desenhos em preto e branco.

Sua adolescência foi um passeio no parque. Por ser bonita, atraía muito os meninos, mas isso não a mobilizava, tampouco envaidecia. Beijou quando quis beijar, namorou assim que sentiu querer estar com Vitor logo depois que ele ia embora. Aceitou seu pedido sem titubear. Ainda assim, não compartilhou, apesar de sorrir sinceramente, a explosão de felicidade dele.

Aproveitava os minutos na companhia do namorado e as saídas ao cinema, cafés, festas de amigos e, seu favorito, assistir o amanhecer de dias nublados.

A primeira transa foi cercada de afeto, carinho, cumplicidade e pouco prazer. Na realidade, naquela noite, Julia dormiu sorrindo abraçada por Vitor. Não sonhou e acordou sendo beijada dos pés à cabeça, o que a fez sentir aquele friozinho na barriga, a respiração acelerar, sua calcinha umedecer...

Foram, aos poucos, se descobrindo e aproveitando as novidades. O primeiro gozo veio acompanhado de um quase inaudível gemido. Julia gostou e aprendeu como prolongar o prazer e conduzir o sexo sem que Vitor percebesse.

Com pouco mais de 24 meses na mesma relação, Vitor, então com 18 anos, sentiu necessidade de andar livre, vivenciar outras experiências e conhecer novas pessoas... principalmente, conhecer novas pessoas. Aparentemente, para Julia, sem motivo qualquer, pois tudo estava como sempre fora. Vitor, na primeira segunda-feira daquele mês de junho, terminou tudo com ela.

Sentiu certo pesar pelos momentos bons do dia-a-dia que desapareceriam, mas não se entristeceu. Na mesma noite, dormiu mais cedo, pois, diante das novas circunstâncias, não iria ao cinema.

Prestou vestibular pra psicologia e passou de primeira numa colocação intermediária. Jamais abandonou ou repetiu nenhuma matéria, apesar de ter ido para prova final de algumas.

Durante a vida acadêmica, se engajou em pesquisa comportamental e, mesmo antes de formar-se, decidiu que trabalharia com recursos humanos. No campus, fez algumas amizades e, debaixo da mangueira, numa primavera, fumou maconha pela primeira vez e só sentiu fome, muita fome. Comeu quatro pastéis acompanhados por meio litro de Coca-Cola. Fumou mais algumas vezes, mas ao perceber que não gostava de ficar chapada, parou, apesar de não deixar o hábito de fumar um Malboro Light com café, após a terceira aula da manhã.

Foi pedindo o isqueiro emprestado pra alimentar o hábito que conheceu Tom, estudante de Ciências Sociais, que, por acaso, naquele dia, tomava um café, pois acordara atrasado e não se alimentara antes de correr para a universidade. Conversaram trivialidades pela hora seguinte. Julia se divertiu com o senso de humor do rapaz e, sem dizer nada, desejou que ele aparecesse novamente. Três semanas depois, já esquecido, Tom surgiu com o isqueiro aceso em punho, arrancando um sorriso daquele rosto de pele escura e olhos levemente puxados que se fechavam toda vez que sorria.

Julia verdadeiramente gostava da companhia de Tom, da maneira que ele a beijava, cuidava, a tocava e se dedicava ao prazer dela no sexo. Sem programarem muito, com o passar dos dias, perceberam que estar junto era melhor que separado e alugaram um apartamento de dois quartos num prédio antigo, mas bem cuidado.

Apesar do volume de trabalho, sempre tomavam café da manhã e jantavam juntos, assim tinham a oportunidade de conversar sobre os acontecimentos do dia, além de alimentar a cumplicidade que permeava os nove anos de relacionamento.

Muito eventualmente, entre uma atividade e outra, Júlia pensava na própria vida e percebia que era, dentro do que ouvia dizer por aí, feliz.

Foi uma grávida exemplar que, cuidadosamente e cheia de afeto, preparou tudinho para a chegada de um guri.

No dia marcado, chegaram cedo ao hospital. Julia, ao contrário do futuro papai, estava tranquila e serena. Seguiu todos os procedimentos sem reclamar, foi simpática com as enfermeiras e receptiva com os parentes e amigos mais próximos que compareceram para testemunhar aquele momento tão sublime na vida de um casal.

Quando Julia partiu para sala a de cirurgia, Tom a beijou amorosamente na testa, este que fora o último beijo.


Este texto foi revisado por Mariana Paiva




GULOSEIMA

Quando eu era 6ª série ginasial na já finada Escola Teresa de Lisieux, tinha um colega chamado Leandro. Pele alva, cabelo castanho escuro com fios bem grossos, voz quase inaudível – pela timidez – e 1,80m. Putaquepariu, mermão! Como assim, 1,80m na 6ª série?!

A característica mais marcante, entretanto, não era a longa distância entre o dedão do pé e o cocuruto, mas, sim, o amplo espaço ocupado pelo composto de ossos que, com as meninges e o líquido cefalorraquidiano, protege o encéfalo. Havia rumores, entre nós, amados coleguinhas, que Leandro media 1,20m até o pescoço... o resto era cabeça.

Na moral, guri é foda. Não perdoa. Além de apelidá-lo, prontamente, de Cabeça, toda vez – isso significa não menos que 100% de ocorrência – que Cabeça chegava tarde na sala e já estávamos sentados, cantávamos, em uníssono, a nossa própria versão daquele tradicional bolero:
– (Ca) besa-me, (Ca) besa-me muuuuuuuuuuuucho...

Ok, ok, concordo que fomos um pouco cruéis, mas há de se considerar uma coisa em nossa defesa: toda classe já teve um Cabeça, ora bolas!

Para a minha geração, pelo menos, havia um apelido muito comum que, analisando agora, refletia uma das facetas racistas da nossa sociedade: todo menino preto (afrodescendente, para os politicamente corretos que não assistiram aos Trapalhões) que jogava bem futebol era Pelezinho. Recordo-me, sem esforço algum, de três.

Apelidos no ambiente escolar, em grande proporção, são atrozes mesmo. A patrulha demagógica, ops, digo, pedagógica, logo vocifera: é bullying. Afe, agora tudo é bullying. Minha paciência para esse comportamento patrulhesco, numa escala de 0 a 10, é de um negativo.

Conheço inúmeros colegas que sobreviveram aos apelidos e hoje são profissionais bem sucedidos, pais e mães de família, artistas etc. A título de exemplo, só em classes das quais fui aluno, o garoto gordinho era Buda; a menina estrábica, Zói; o com arcada dentária superior proeminente, Coelhinho; o com pálpebras pesadas, Soneca; o com um ritmo peculiar, Sequela; o que, uma única vez, foi pra aula com conjuntivite, Maconha; a que falava muito, Motorzinho; e a menor de todas, Chaveirinho. Sem contar os registros de outras escolas: Oreba, Cinturinha de Kibe, Manteigão, Matagal, Lombrigão, Cara de Kombi e Boca de Sacola.

Hoje em dia, de volta à sala de aula, como professor, percebo que a tradição de apelidar perdura. Obviamente, identifico diferenças relacionadas ao referencial desta geração. Na mesma turma, leciono para Smigol e Shrek. Tenho que reconhecer que o garoto apelidado de Shrek se assemelha demais com um ogro. Logo, não coincidentemente, parece com meu amigo René.

René nasceu em Maragogipe, cidadezinha no baixo recôncavo baiano, próxima de Santo Amaro, que, por sua vez, tornou-se famosa pelos seus notórios filhos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda pirralho, mudou-se para a capital e cresceu na Pituba, bairro de classe média, que, na nossa juventude, era seguro e tranquilo, com ruazinhas quase sem movimento de carros que nos possibilitavam, entre outras coisas, bater o baba (partida de futebol, para os leitores não conhecedores do vocabulário baianês) no meio da rua. Os chinelos viravam traves, o que causava intermináveis discussões sobre a legitimidade do gol; o asfalto, o gramado da Fonte Nova; e a sola dos pés, chuteiras Topper.

Ainda nos primeiros anos da tenra adolescência, René incursionou como poucos na lama do Metal. Não satisfeito em ensurdecer os vizinhos com as canções do Slayer, Antrax, Nuclear Assault, Napalm Death e Megadeath, comprou com sua própria mesada diversas fitas K7, BASF Chromo 90 minutos, para difundir entre os mais jovens o sagrado poder da distorção. René foi, para toda uma geração de roqueiros das ruas Bahia, Território Rio Branco, Mato Grosso e Território do Amapá, uma espécie de guru.

Os sobreviventes desenvolveram um gosto musical que, com os anos, assim como o do próprio Ogro-Mor, ampliou-se, incorporando novos elementos como Cat Stevens, Bob Dylan, Wilco, The Beatles, Neil Young, Leonard Cohen, Sá & Guarabira, Zé Rodrix, Clube da Esquina e, obviamente, Sidney Magal.

Conheci René quando eu namorava Adriana, estudante de Direito da UFBA. Ela tinha diversas amigas descoladas da época de escola que curtiam música e sempre se encontravam pra uma rodinha de violão. Jovens, humpf! Salvo engano, bem provável pelos lapsos de memória que a idade tem me proporcionado, René tava comendo alguma das meninas ou querendo comer alguma delas. O fato é que, naquela noite, quando participei de um destes encontros pela primeira vez, me impressionei com o repertório e a voz do cara. Ele tinha aquela voz fruto de um grande investimento em nicotina e cachaça vagabunda.

Chegamos a dividir o palco. Foram cinco ensaios e somente uma apresentação da nossa prematuramente extinta Seu Roque... mas memorável – para mim, pelo menos, que realizei meu sonho de adolescência: a minha própria banda. Vale ressaltar que isso aconteceu pouco antes de eu completar 37 anos.

Duas semanas depois da apresentação, encontrei, na Livraria Cultura, uma ex-aluna com quem ainda mantenho contato virtual, e ela, pra minha surpresa, afirmou que assistira ao show.
– Foi mesmo? E aí, gostou?
– Sim, sim... a banda é bacana.
– Hum... Ô, Raiza, pode ser sincera, babes. Não tem problema se não gostou.
– Não, não, eu até gostei da banda, mas é que o vocalista é espetacular.
– Porra, ele tá cantando pra caralho, mesmo.
– Mas não tô falando disso não. O cara parece um caminhoneiro.

Não poderia haver uma descrição melhor. Quando contei para ele, gargalhou e sentiu-se orgulhoso da comparação. Afinal, este deve ser justamente o arquétipo idealizado de quem segue os preceitos dos quatro líderes espirituais: Chuck Norris, Steven Seagal, Stalone Cobra e Conan, O Bárbaro.

Há poucos dias, conversando, coincidentemente, num bar justamente na supracitada Rua Bahia, onde morou, chegamos à conclusão de que não vivemos a adolescência, mas sobrevivemos a ela.

René já tinha se mudado para o centro da cidade, nos Barris, onde fica a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, quando aprofundou sua vivência em expansão da mente através de substâncias, predominantemente naturais, que agem diretamente no sistema nervoso central, abrindo as portas da percepção.

Numa noite qualquer, foi convidado por uma amiga que morava ali na vizinhança pra tocar um violão e comer um delicioso bolo de chocolate com maconha. Em 0,5 segundo, chegou ao apartamento da amiga, onde mais três estudantes de ciências sociais ou qualquer coisa do gênero se encontravam esparramadas nuns almofadões com forro indiano, completamente chapadas.

A dona da casa e doceira disse que aquilo era porque, ao preparar o quitute, mantivera todas as quantidades dos ingredientes, exceto a boa e velha Cannabis, cuja porção fora triplicada.

Aliada à fome perene de meu amigo, a excitação típica de uma criança diante de um algodão doce gigante o fez se lambuzar na guloseima psicotrópica. Em questão de minutos, metade da travessa transformou-se em bolo alimentar e, do estômago, seguiu direto para a corrente sanguínea.

Quase nada foi conversado durante as horas seguintes, e as tentativas não passaram de blá blá blá nonsense que desencadeava crises intermináveis de gargalhadas. Tudo, absolutamente tudinho da silva, fazia sentido e era hilário.

Após recompor minimamente seu senso de equilíbrio e coordenação motora, voltou pra casa, caiu na cama e hibernou. Na manhã seguinte, despertou com o chamado da natureza o impelindo para, como o próprio diria, dar uma barreada.

Levantou, grunhiu algo parecido com um bom dia para a mãe que tomava café da manhã, pegou a página policial do jornal e se trancou no banheiro, pois havia um serviço a ser executado – afinal, metade de um bolo não é metade de uma torrada.

No meio do processo, Bruno, seu irmão dois anos mais novo, atrasado pra escola, bateu na porta pedindo para escovar os dentes. Diante da negativa, pediu que, pelo menos, abrisse uma fresta da porta e desse a pasta e a escova. Assim foi feito... e, com o portal do inferno entreaberto, os vapores, então comprimidos no recinto azulejado de 2m x 1,30m, se expandiram, invadindo as narinas do apressado estudante.
– Afe, Maria! Que porra é essa?!
– Oxe, que foi, man?
– Cê ta fumando maconha no banheiro, é?

NOTA: Quando me mudei para a Alemanha, morei um mês em Frankfurt. Por uma situação adversa, resolvi ir para Bremen, onde René provisoriamente morava com nosso amigo Michal, hoje marido de minha amiga-irmã Cris. Eu estava com quatro quilos a menos do meu peso ideal, proveniente de tristeza. Ao chegar, em pleno inverno, com temperatura negativa e perto da meia-noite, à estação ferroviária da cidade onde moraria pelo próximo ano e meio, a primeira pessoa que avistei foi René. Ele apressou o passo em minha direção com sorriso aberto e, vendo meus olhos mareados, me abraçou forte e disse: “Tá tudo bem. Agora você está com seus irmãos”.


Este texto foi revisado por Paula Berbert

AMBOS

Quando digo que não bebo nada alcoólico desde os 18 anos, junto com um olhar de incredulidade e espanto, vem o:
– Mas por quê?

Putaquepariu, porque não! Odeio explicar que, além de não apreciar o sabor da cerveja – a bebida mais comumente ingerida –, não gosto da sensação de estar com meu estado de consciência alterado em absolutamente nem um grauzinho sequer. Sem contar que passo mal.

Cândido Neto, excelente guitarrista e produtor musical, tem dois grandes objetivos na vida: resmungar e me embebedar. Invariavelmente, das poucas vezes que nos encontramos – poucas, levando em consideração que temos diversos amigos em comum –, Amarelo, como é conhecido, me oferece um drink.
– Você ainda continua com essa viadagem de não beber?
– Uhum.
– Tem cura, man.

Da última vez que nos batemos num bar ali no Rio Vermelho, bairro boêmio aqui em Salvador, ele, no melhor estilo Mestre dos Magos, surgiu do nada com duas doses de tequila: uma pra ele e outra pra mim, senhoras e senhores. Depois de alguns minutos negando a generosa oferta, percebi que Amarelo não cederia. Então, para acabar com aquele tormento, aceitei: uma pitada de sal, uma fatia de limão e uma dose num só gole, sem dó nem piedade. Afe, quase morri. Parecia que tinha engolido um gato vivo que ia descendo com as garras fincadas na minha garganta. Em-bri-a-ga-do.

Outra pressão social que sofro é por não querer ter filhos. Isso é um saco. Na realidade, é insuportável. Toda vez, invariavelmente, toda vez que afirmo meu total desinteresse pela paternidade, as pessoas, arraigadas pelo senso comum, argumentam que isso é passageiro e em breve mudarei de ideia, afinal, todos querem procriar.

Isso ainda se agrava quando interajo com crianças e percebem que tenho jeito com as criaturinhas.
– Fica aí dizendo que nunca vai ser pai e blá, blá, blá. Quando tiver, vai ser um paizão.

Como diria Jack o Estripador, vamos por partes:
1. Gostar de criança não significa querer ter filho;
2. Ter jeito com criança não significa ser bom pai;
3. Não gosto de crianças! Gosto de algumas crianças.

Há mais ou menos uma semana, tive o privilégio de conhecer, finalmente, Maria Luisa, a filha de Silvana Hirsch. No auge dos seus três anos, Malu me conquistou. Além de linda, com grandes olhos expressivos e uma boca que parece ter sido cuidadosamente desenhada por Da Vinci, é assustadoramente articulada para a idade e tem uma compreensão da vida que poucos adultos conseguem acompanhar. Pois bem, em meio minuto, Malu me conquistou. Percebe a diferença? Não gosto de Malu porque ela é criança. Gosto de Malu porque Malu é Malu.

No nosso encontro, resolvi fazer uma mágica. Peguei duas moedas, coloquei na palma da mão e perguntei:
– Malu, cê sabe o que é isso?
– Claro. Dinheiros!

Adulto insuportável, pensei: quem me dera tivesse mais dinheiros agora. Acho engraçado quando algumas pessoas falam que não saberiam o que fazer se ganhassem na loteria, pois é dinheiro demais. Oxe, eu super saberia! Tenho alma de rico, a despeito da minha conta bancária. Mas como é ligeiramente improvável ganhar na megasena acumulada sozinho, fico elucubrando sobre em quê investiria se tivesse uma graninha sobrando. Nada demais, apenas o suficiente para abrir um negócio próprio, ser meu próprio chefe e, principalmente, estabelecer meu próprio salário.

A minha primeira ideia sempre foi uma funerária. O público-alvo, além de garantido, jamais retorna pra reclamar do serviço. Contudo, sempre esbarro em duas questões: não sei como faria para propagandear meu produto nem, tampouco, consigo pensar num bom nome sem soar, no mínimo, estranho.

Aqui em Salvador, tem uma chamada A Decorativa. Puta que pariu! É tão ruim quanto aquela casa especializada em depilação chamada Pelo Zero. Como assim Pelo Zero, mermão? Não tinha um nome mais infame, não? Ah, pior que o nome era o slogan: pelo sim, pelo não, Pelo Zero. Afemaria! Putaquepariu! Mas se você acha que não tinha com piorar, sinto muito por decepcioná-lo. Na época do réveillon 2010-2011, quase engasguei ao me deparar com um outdoor: Pelo 3, pelo 2, pelo 1, Pelo Zero!

Salvador é um terreno fértil para aberrações deste tipo. Talvez a maior loja de móveis e eletrodomésticos daqui chama-se Insinuante. Para os locais, passa despercebido, pois já estamos acostumados, mas Insinuante é nome de loja de lingerie ou de motel! Pelamordedeus, né?

Há, na Avenida Sete, bem no centrão da cidade, uma loja de bijuterias cujo logotipo é aquele sinal de joia feito com o punho cerrado e somente o polegar pra cima. O nome da loja: Mãozinha Joias. Escataploft, caí da cadeira. Surreal, inacreditável, inadmissível. Nem meu amigo Pedrão seria capaz de um trocadilho tão... tão... tão torpe.

Para não incorrer nestes equívocos, minha segunda opção de negócio já tem tudo planejado: seria uma boate bissexual chamada Ambos. A pronúncia, vale ressaltar, com aquele “s” de criança que coloca a língua entre os dentes, sabe? Tipo o artigo definido da língua inglesa, the. O garoto propaganda, por questões óbvias, seria Victor Fasano. E o slogan: por um lado é bom, pelo outro... é melhor.

Texto revisado por Paula Berbert.

PIPOCA FISIOTERÁPICA

O que leva alguém em sã consciência a prestar vestibular para Musicoterapia? Pergunte a alguém que fez isso, ora bolas, deve pensar o caro leitor. Pois bem, estou respondendo. Isso mesmo, eu fiz Musicoterapia. Não me formei, é verdade. Mas cursei seis dos nove semestres no casarão secular do Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador, cuja entrada principal fica na Av. Carlos Gomes, ali, pertinho do Largo Dois de Julho, e o portão dos fundos, na Rua do Cabeça.

Além de a concorrência ser de 0,5 candidato para uma vaga, ouso arriscar que 99% dos calouros não faziam a menor ideia do que a profissão propunha. Confesso que não tenho isso muito claro até hoje. Pessoalmente, acreditava poder ajudar os outros através da minha expressão artística predileta. Enfim, devaneios juvenis.

Veja bem, não estou afirmando que Musicoterapia não funciona. Estou convencido de sua aplicabilidade em determinadas situações – afinal, não há abordagem terapêutica que não dê nenhuma resposta como não há nenhuma que tenha todas. Apenas me desiludi com o curso em si e fui, simultaneamente, fisgado pelas Letras.

Meus três anos de Universidade Caótica, digo, Católica, foram muito proveitosos. Principalmente o trajeto de ida para as aulas: 12h30, debaixo daquele sol agradável do verão soteropolitano, pegava o busu com não menos que oitocentos passageiros confortavelmente amontoados uns em cima dos outros. Para melhorar, havia umas secundaristas de cabelo crespo que, com o intuito de realçar os cachos, empapavam as madeixas com Kolene, um condicionador capilar que, na realidade, deveria ser enxaguado após uso, mas que as garotas, nos idos dos anos 1990, usavam após o banho, exalando um cheiro característico de dar náuseas. Muitas vezes tive que fazer contorcionismo ao passar por uma delas para não dar um encontrão mais forte e uma das gotas amarelas, fragilmente pendendo de um dos cachos, pingar na minha roupa e manchá-la para sempre.

Já na Estação da Lapa, meu ponto final, gostava de andar vagarosamente observando os transeuntes. Tinha de um tudo: trocentos alunos do Colégio Central filando aula; trabalhadores batendo um rango numas bibocas imundas; infelizes que apresentavam a mesma receita médica há anos, pedindo ajuda para comprar um remédio para a filha doente; e, meus favoritos, os autodenominados Fanáticos de Cristo.

Eram dois caras que se vestiam de preto da cabeça aos pés, seguravam uns estandartes de aproximadamente 3 x 3 metros com trechos da Bíblia e, bem em frente a uma das mais movimentadas escadas rolantes, com uma caixa amplificada Ciclotron, berravam palavras de salvação para as almas perdidas. Simplesmente hilário.

Saindo da Lapa, seguia por uma ruazinha estreita e atrolhada de ambulantes por todos os lados. Lá, podia-se comprar desde agulha de vitrola até a miraculosa Pomada Sapucaina, que “cura dor de cabeça, pneumonia e coceira na vagina”. Sem contar que as estratégias de trotoir eram geniais, apesar de um pouco excessivas na questão do volume. Megafones, matracas, atabaques, gambiarras ligando alto-falantes, gogós atômicos, gritos histriônicos... nada parecia ser suficiente pra fisgar o cliente. A cada dia havia uma surpresa, fosse uma fantasia diferente, fosse uma promoção do tipo: 1 é R$ 3, 2 é R$ 6 e 3 é R$ 10! Como assim, 3 é R$ 10?! Promoção do cabrunco essa, viu?

Criatividade é o que não falta. Lembro que em uma das raríssimas vezes em que fui à praia, vi passar um ambulante com um cabo de vassoura à guisa de cabide no ombro, com os mais variados tipos de bronzeadores e afins pendurados em cordinhas. Ele caminhava ao longo da linha d’água gritando: bronzeadoooooor, bronzeadoooooooor... Logo atrás, outro rapaz, com uma caixa de madeira entupida de maços de cigarros, também anunciava seu produto: bronzzzzeador pra pulmão, bronzzzzeador pra pulmão.

Contudo, nenhum deles bate o vendedor de pipoca que encontrei na beira do Capibaribe, em Recife, quando esperava um ônibus no começo da noite. O trecho que consegui ouvir e copiar foi o seguinte:

Não se aperreie que é baratinha,
E foi feita ainda de tardinha.
Pegue seu ônibus com tranquilidade,
Não interessa sua idade.
Tu vai mastigando enquanto tá viajando,
Sentado ou em pé, sentindo o cheiro da maré,
E, até chegar lá,
Faz fisioterapia pro maxilar.

Este texto foi revisado por Paula Berbert

QUERÊNCIA

Este blog de crônicas faz uma pausa e meio compasso para uma poesia.

Nasci em uma casa de telha-vã,
Portas entreabertas
E cheiro de alfazema
Entrando pelo quintal.

Quando me visitares
-não interessa em que cidade,
Estado ou país-
Pela janela do meu quarto
Sempre entrará o mesmo perfume
Que embalava os meus
Sonhos infantis...